quinta-feira, agosto 17, 2017

“Por favor, não me ame tanto”, pensava eu quando ela chamava meu nome, com aqueles olhos sorrindo e o coração audível. Eu a vi se perder no oi, enquanto tentava se esconder atrás de seu cabelo. Mulher forte feito menina, no topo dos seus um metro e setenta e dois, desmanchou-se quando a fiz minha, entregou-se além do que permitiria e ficou, embora eu a tenha mandado embora. Três vezes.

E ela está aqui e eu a mandei embora ainda pouco. Seus bracinhos magrelos apoiando meu pescoço, seus dedos longos e unhas bem-feitas — quanto trabalho eu tive para torná-la impecável? — enxugando as lágrimas que descem pelo meu rosto, manchando a roupa. Ela sussurra palavras doces e tem um silêncio confortador. Eu, daqui debaixo, a vejo com os olhinhos brilhando, de gente que não vai embora. Fecho os meus e imploro.

— Por favor, por favor, por favor… Não me ame tanto.

Ela sorri, beija-me a testa e permanece quieta, as lágrimas querendo lhe fugir dos olhos, o carinho ininterrupto, o sorriso intocável. Me dói um bocado vê-la tão minha, tão entregue. Quis cuidá-la desde que a vi, naquele pub submerso, entre copos e copos de chope. Quando demos um abraço de frio, desenhei seu corpo com meu braço – encaixamos como peças de quebra cabeça que levaram anos para ser montadas.

Vi a lágrima se formar no canto e ela suspirar fundo. Fazia isso sempre que estava prestes a se entregar, ou assim dizia ela, achando que já não tinha se exposto demais. Sentei, ainda com o rosto molhado, e segurei o seu entre as mãos, forçando que me entendesse naquela quietude ensurdecedora. Ela se fez minha outra vez, deu-me as costas – como sempre – para dormir. Ouvi sua respiração impaciente e, primeira vez, pus os braços em torno de seu corpo trêmulo e apagamos assim.

(…)

Era um sábado.

Ela veio linda no alto do seu salto agulha. Jaqueta de couro, unhas vermelhas, maquiagem impecável. Tivemos outra daquelas conversas discutidas, mas ela não se entregou demais. Na verdade, ela não se entregou nadinha.

— Preciso ir. Amo você, mas preciso ir. Há outra pessoa, sei lá, qualquer coisa que te convença. Só não posso mais ficar nesse ir e vir, não quero. É isso, não quero. Por favor, me entenda. Há um bocado de coisa que não encaixa entre eu e você, e cansei de unir os imãs do mesmo lado. Por favor, me deixe ir.

Perdi o chão. Esmurrei a parede, chorei, vi um filme diante de mim.

— Você não pode fazer isso comigo. Não, você não pode ir. Me escolhe. Por favor, eu sei que não devia fazer isso, que não aceito isso, mas, por favor, fica comigo. Eu estou te implorando pra ficar, estou te pedindo. Por favor, fica. Por favor, eu te amo, fica.

Ela chorou. Beijou-me a testa e, com a mão na maçaneta, disse que me amava e sentia muito. Ameacei dizendo que jamais me veria outra vez. Chorando, deu-me as costas e saiu encostando a porta. Fiquei olhando praquela madeira escura, ansiando ouvi-la voltar. Não veio. Sussurrei, tarde demais.

— Por favor, te amo tanto! Por favor, me ame mais…

 

Escrito por Mafê Probst

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