Quando nascemos choramos e esse choro é apenas uma metáfora. Choramos porque nos tiram do aconchego da nossa mãe, quem é que quer isso?

Sabes mãe, às vezes quando me deito na cama penso na tragédia que seria se um dia, tu fosses como todos os seres humanos: mortal, mas não és, pois não? Claro que não. Dizes que és o meu anjo da guarda e eu acredito que os anjos estão sempre connosco, por isso sei que estarás sempre comigo.

“Desculpa quando considerei que não era uma boa imagem ter a minha mãe a dar-me um beijo antes de entrar num autocarro (…)”

Desculpa mãe. Desculpa quando passei por aquela fase completamente idiota e desprovida de bom senso, aquela fase em que achei que a minha reputação seria bem melhor se tu não me levasses até à porta da escola. Desculpa quando considerei que não era uma boa imagem ter a minha mãe a dar-me um beijo antes de entrar num autocarro que me levaria numa visita de estudo, desculpa se nessas viagens nem me ocorria a possibilidade de não te voltar a ver. O destino às vezes troca-nos as voltas e eu achei sempre que a vida estava garantida, nunca pensei que negar-te um beijo pudesse ser a minha última atitude contigo.

Desculpa mãe. Desculpa quando me ligavas à hora de almoço e eu rejeitava as tuas chamadas porque estava num café com os amigos e nenhuma das mães deles lhes ligava todos os dias. Desculpa quando te dizia “mas as mães deles não (…)”, o que importava se as mães deles não se lembravam dos filhos na pausa do almoço?

Desculpa mãe. Desculpa se por vezes me esqueço que sou a única coisa que é realmente tua. Desculpa se por vezes me esqueço que és a única coisa que é realmente minha. Desculpa mãe.

“Fazia-me sorrir, e tu sabes o quanto é difícil fazer-me sorrir de manhã.”

Lembraste quando me deixavas bilhetes no espelho de manhã? Tenho saudades disso. Fazia-me sorrir, e tu sabes o quanto é difícil fazer-me sorrir de manhã. Lembraste quando estava doente e tu estavas cansada porque o teu trabalho tinha corrido mal, mas preparavas uma sopa quente e cremosa para que eu conseguisse comer sem ter dores na garganta? Obrigada por isso.

Desculpa as noites que passaste em branco porque eu fui sair à noite e tu só querias ouvir os meus passos no corredor para saberes que eu estava bem. Desculpa quando apanhei a minha primeira bebedeira e vomitei na sanita, disseste-me: “Está tudo bem filha.”, enquanto seguravas o meu cabelo e eu chorava de vergonha.

“(…) desculpa se nunca te agradeci os jantares que fazias dia após dia (…)”

Desculpa se nunca te agradeci as inúmeras vezes em que acordavas às 4 da manhã só para me dar o antibiótico a horas certas, desculpa se nunca te agradeci os jantares que fazias dia após dia, mesmo quando estavas doente.

Sabes, nem sempre fui a melhor filha para ti. Nunca te disse o quanto te amo ou se o disse, não foi o número suficiente de vezes.

Queria-te para sempre comigo, dentro de um bolso, junto ao coração. Desculpa tudo aquilo que nunca te disse mamã. Desculpa não ir mais vezes contigo ao cinema. Desculpa não te fazer o jantar nem ajudar a decidir o que vais cozinhar amanhã ao almoço. Desculpa-me por ser desarrumada. Desculpa o número de vezes que te disse “Já vou” e não fui. Desculpa levar-te poucas vezes a passear. Desculpa tudo o que (não) fiz.

Sabes mamã, se eu pudesse criar um mundo perfeito só para ti, fá-lo-ia sem pensar duas vezes. Dava a minha vida para salvar a tua, e se algum dia a tua vida terminar duvido que eu consiga aguentar a minha.

“Obrigada por me teres protegido sempre, obrigada por me teres poupado às coisas más do mundo (…)”

Sabes mamã, no fundo tu és tudo aquilo que me mantém em pé quando as tempestades me abalam e atormentam. Obrigada por me teres protegido sempre, obrigada por me teres poupado às coisas más do mundo e obrigada por teres tomado conta de mim, sempre.
És engraçada. E bonita!, meu Deus, como és bonita mãe. Não herdei a tua beleza, mas herdei de ti algo muito mais precioso: o teu sangue. Corres-me nas veias.

Sabes que algum dia terei que deixar o ninho e eu também sei. Ainda não fui embora e já tenho saudades tuas e da tua voz. Sinto falta do teu colo, de chorar nas tuas pernas e de saber que entendes a minha dor.

Sabes mamã, às vezes sinto-me sozinha e tenho medo de o admitir. Não quero ser fraca, nem quero chorar, mas se pudesse tornava-te imortal, porque sei que se um dia me faltares, faltar-me-à o chão e o ar.

Amo-te mãe e lembra-te de me desculpares por tudo aquilo que nunca te disse.

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