Para ser feliz mesmo quando ninguém estiver olhando

Matarás. Sim, matarás. É óbvio que não sou deus pra ficar mandando em toda a gente — mamãe, contudo, julga-me um santo — mesmo assim, afirmo que matarás a inveja, aquele desejo tolo e inviável de seres quem tu não és. Roubarás corações sob pena de ganhares mil anos de perdão. E mais: cometerás perjúrio, de cara lavada, ao declarar que quem começou a amar primeiro foi o outro, quando, na verdade, foste tu o arpoado desde o princípio pelos cupidos, sem o mister das anestesias.

Tomarás de assalto todo e qualquer sorriso com o qual te deparares no caminho. Esquece as pedras. Delas ocupar-se-ão os poetas. Concentra-te só na poeira da estrada e aproveita bem a viagem. Assim que tiveres chance, furta cores. Tu bem sabes que o sol nasce para todos. E por falar em escuridão e luz, farás, sem remorso, o aborto provocado do ódio ainda em fase germinativa. Serás devidamente acusado de receptação e tráfico internacional de afeto. Sonegarás toda demonstração de ciúme e outros sentimentos menores que porventura permearem o teu peito.

Que ninguém julgue isso uma espécie de assédio, pois farás a seguinte chantagem: diz ao ser amado que, em caso de saudade extrema, aplicarás nele um abraço tão apertado que muitos comentarão não ser um abraço desse mundo. Será uma demonstração de carinho tão generosa e honesta que, certamente, demandará unguento e um pé-de-cabra para separar os corpos. Já imaginaste um abraço assim? Haverá quem te acuse de amar o próximo. Não te deixes abater.

Revidarás os formais bons-dias com juros e correção monetária, quem sabe, distribuindo apertos-de-mão a estranhos. Vais sequestrar o mau-humor vigente no trânsito da cidade e engolirás a chave do cativeiro. Mesmo que sujeito a críticas, cativarás os teus filhos com mentiras do tipo: — Sim, meus queridos, a vida será para sempre boa. Torturarás com altas voltagens de fantasia quem já não sonha tem várias primaveras.

Aliás, liderarás um bando de sonhadores insolentes e todos os canais de TV anunciarão durante o horário nobre que tu e teus pobres lunáticos formam a mais adorável quadrilha organizada de todos os tempos. Tu vais matar as horas com requintes de humanidade, ao passo que apreciarás o vento no rosto e a paisagem da estrada. Se fores fugir, leva-me contigo. Por onde quer que tu andes, traficarás todo o arsenal de belas canções que contiver no teu repertório. Demora-te o quanto puderes nas composições de Lennon, McCartney e George Harrison. Pode parecer ilícito, mas, tua droga será tua música.

Serás acusado de clonagem de cartões de natal. Pouco importa. Hoje em dia, ninguém dá a mínima aos correios. Vais agredir a palermice dos coquetéis chiques ao declamares os poemas simplórios de Mário Quintana. Socarás os cenhos das madames siliconadas com a poesia infame de Charles Bukowski. Como se fosses o velho Hank disfarçado a vestir uma batina, ameaçarás os convidados com os monólogos de Padre Antônio Vieira. Podes ter certeza: não ficará canapé sobre canapé. Literatura não enche barriga, meu bem.

Amealha. Isso mesmo. Amealha risos. Tu vais, sim, cobiçar e plagiar toda espécie de bom humor alheio. Contamina-te deles mais que a um vírus ou que a tristeza das mãos acenando. Nos teus raros momentos de desespero, difamarás o Criador e, mesmo assim, de bom grado, ele irá te perdoar, pois sabe que o crime de ter criado o mundo ainda compensa.

Tu vais causar um alvoroço danado quando vieres a público assumir, confessar que abusaste da verdade e que estupraste a mentira. Vais poluir a cidade com serenata e tuas roupas espalhafatosas encharcadas de cor. Por prazo indeterminado, ficará permitido a ti o porte legal das armas de afago. Usa a tua imaginação, baby. E voa comigo.

FONTERevista Bula
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