Paixão à flor da carne

Afinal, por que será que a gente se apaixona? Eu tenho uma teoria sobre isso. A gente se apaixona porque não suporta viver em paz com a gente mesmo ou com outras pessoas, porque não temos coragem suficiente para sermos sozinhos nessa vida mais turva que água de mar revolto e sempre estamos em busca de alguém para arrastar junto lá pro fundo.

A gente se apaixona porque não tem nada melhor pra fazer, não tem jogo do Ferroviários pra acompanhar, filme do Terrence Malick pra assistir ou disco da Billie Holiday pra ouvir.

A gente se apaixona porque se mete a besta e quer bater de frente com quem não pode, porque apanha na escola e não consegue revidar, porque tenta ser corajoso mesmo quando não há chance nenhuma de ganhar.

A gente se apaixona porque não tem dinheiro pro taxi e paga com o coração, porque é fraco pra bebida e vai caindo na lábia da primeira pessoa atraente que nos olhe com ternura, porque acredita no primeiro, segundo, terceiro e quarto amor, se enganando e achando que a prática leva a perfeição.

A gente se apaixona porque quer trepar com alguém, uma, duas, três vezes – às vezes, para os mais pacientes, isso chega a durar até uma vida inteira, porque ao menos uma vez sente vontade de levar o café da manhã na cama pra alguém, porque quer mimar, ser mimado e se sentir importante, porque tem o sonho besta de entrar na igreja, no terreiro, sinagoga, tenda na praia ou caverna de braços dados com quem a gente gosta.

A gente se apaixona pra ter pra quem mentir, pra ter um ombro onde chorar, duas orelhas que escutem nossos lamentos e uma boca que nos conte fofocas quentes sobre as pessoas que odiamos, tipo o vizinho do 42.

A gente se apaixona por não saber quanto tempo de vida ainda tem, imaginando que qualquer beijo pode ser o último, que qualquer broxada pode ser a última, porque não ter coragem de dar fim à própria existência com uma bala na cabeça ou uma dúzia de comprimidos e também pra compensar deficiências como pau pequeno e medo de barata,porque tem medo do escuro e procura alguém que possa acender a luz do corredor e buscar água de madrugada.

A gente se apaixona porque cansa de esperar pela tampa da panela, a metade da laranja, o limão da caipirinha, a Pilar do Saramago e parte pro tudo ou nada, porque não confia mais no Clint Eastwood e passa a preferir Woody Allen.

A gente se apaixona pra poder botar a culpa no Chet Baker e dizer “Ah, foi sem querer; não era pra minha mão estar debaixo do seu vestido.”

No fim, a gente se apaixona porque, sem isso seria melhor ser uma árvore, um rinoceronte ou o Eike Batista.

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Escrito por Jocê Rodrigues
Publicado em Revista Cat Walk

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