Ontem eu me embriaguei de você

Ontem eu me embriaguei de você. Reservei o meu dia inteiro para isso.

Logo pela manhã, saí de casa e coloquei aquela roupa que você tanto gostava de me ver vestida. Andei por cada caminho que percorremos juntos. Lembrei do gosto de café que saía de sua boca quando nos encontramos em frente àquele portão. E do seu perfume, ao olhar para aquele banco vazio, mas que já foi palco de um abraço quente.

Ao voltar para a casa, fiz questão de dedicar toda a minha tarde para assistir àquele filme que você tinha me recomendado ver – e assisti, mais uma vez, ao outro filme que lembrava a nós dois. Peguei o meu celular e coloquei no “repeat” aquela música que você tinha me enviado uma vez. Era aquela, do John Mayer, que você logo me enviou quando ficamos felizes por curtir o mesmo som. Lembra?! Fiz tudo isso, devorando várias barras daquele chocolate que você havia me dado quando eu estava doente.

Olhei para a janela do meu quarto e vi aquele lindo céu alaranjado. O dia já estava dando espaço para a noite chegar. Peguei o meu violão e comecei a cantar músicas que me lembravam fragmentos do que vivemos juntos. Uma quase história.

Ao terminar de tocar aqueles acordes e ouvir a minha própria voz desafinada, a noite já havia chegado. Encostada na cabeceira de minha cama, novamente pego o meu celular e começo a reler cada trecho de nossas conversas. Cada áudio gravado. E até mesmo aquelas fotos que você me enviou de sua viagem para o Rio.

Sou sensível, tu sabe. Então não demorou muito para que um misto de sorriso com lágrimas brotassem em mim. Fiquei parada olhando para sua foto de perfil e, antes de fechar a tela para ir dormir, eu finalmente consegui entender.

Cada atitude. Cada olhar desencontrado. Cada mensagem que nunca recebeu uma resposta.

Você ainda pensa. Você ainda tem carinho ou, quem sabe, admiração. Mas não o suficiente para recomeçar. Continuar. Ficar.

Ainda meio bêbada, me peguei num momento de raiva e te excluí. Dos contatos do meu celular e das redes sociais. Uma atitude desesperada de tentar excluir o tempo que você ficou. Mas claro, isso é uma bobagem.

E é por isso que eu te peço: não me leva a mal. Longe de mim querer te culpar. Sabemos bem onde houve cada erro. Sabemos dos medos e dos desejos. E que fique guardado somente o que ficou de bom.

Mas é que somente hoje, ao ser acordada pelos raios de sol que invadiam o meu quarto, eu fui entender. Entendi que não dá pra sobreviver de fragmentos. “O tempo não para”… Não é assim que diz a música?

Que lembranças boas devem ser respeitadas, mas não revividas, pois por algum motivo, se elas se tornaram lembranças, então é porque não devem fazer parte do nosso presente. E eu entendi, finalmente, que eu poderia tentar reviver o que nós vivemos, assim como eu tentei ontem. Mas você não está aqui. E não existe um “nós”. Não vai existir.

Estou me curando da ressaca e, agora, me permitindo viver.
Um novo dia.
Um novo eu.

TEXTO DESthefanie Miyahara
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