O que ficou foi o que passou

Certo dia ele veio com essa de que precisava confessar e confessou. Usou do seu próprio tom de confissão e disse: você é diferente. Em seguida me olhou tão rapidamente que eu pensei: puts, que coisa de quem tá apaixonado. E estava mesmo. Embora eu não… Pelo menos, não naquele momento. Eu só queria ter alguém, falando de mim para mim. Talvez seja culpa do meu lado libriana. E ele era assim. Falava de mim, para mim, para o mundo e para quem estivesse por perto de que estava apaixonado.

Eu tenho medo do escuro, e só não me afligia mais porque ele quando não podia ser a minha luz, estava por perto para acender uma. Aquilo era legal, sabe? Entre todas as histórias a minha era a mais bonita. O problema é que, eu só me dei conta de que era uma história quando por um dia, eu parei para ler os capítulos. E acabou não uma, mas duas, três… E em todas foi ele quem usou do tom para me dizer e me assegurar e relembrar: ele só não estava apaixonado por mim, ele era apaixonado por mim!

Após reler os capítulos pela terceira vez descobri que eu era também. E só não mais do que ele por ser receosa o bastante e frear para não entrar de cabeça em qualquer coisa. Mesmo sabendo que essa coisa durava mais ou menos há quatro meses. Aí passamos a nos beijar mais devagar. Sabe? Aquilo de querer arrancar tudo um do outro havia passado. Parecíamos dois adultos que se beijam de forma pensada.

Ele passou meses me perguntando sem obter resposta: quem é você? Ele não sabia, nunca dei certeza de nada. O meu maior medo era que ele descobrisse antes de mim. Não estava querendo ser misteriosa, só não sabia a resposta, e talvez, se ele soubesse teria desistido.

Eu sou de família baiana misturada com o cerrado, todos falam alto e com gesticulações e isso é de assustar no começo. Mas logo ele quem estava gritando junto à mesa do almoço. E só silenciava quando eu, no auge das minhas crises de ciúme criava mil e uma maneiras de falar que mesmo apaixonada eu queria era distância. Mas, eu não queria de verdade, entende? Eu gostava de o sentir escapando, só para poder reconquistá-lo novamente por puro mérito meu. O meu medo era que o nosso beijo se tornasse um beijo de adulto, que nos tornássemos tão adultos a ponto de nem nos beijarmos mais.

Talvez não tenha sido amor, talvez tenha sido apenas um “nós dois” tão grande, tão evoluído de tantos pares que se formam pelas noites. Eu sentia muito. Eu sinto muito. O meu medo era que você se cansasse de tentar me entender, de não saber quem eu sou, de desistir dos almoços de gritaria com a minha família por querer um silêncio tão quieto que me pediu-o… Eu não soube negar, por mais que eu quisesse questionar. Mas, tudo bem, talvez seja assim mesmo. E como sua mãe mesmo diz, entregue aos céus e deixa que do resto Deus cuida, um dia após o outro, um mês após o outro, três anos se passaram e nossas vidas também. E por ter tanto medo das coisas, agora eu enfrento o escuro e tenho que acender a luz sozinha.

FONTESem Caô
TEXTO DELara Miranda
COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS