O que dizem os silêncios

O vento balançava as cortinas amareladas, fazendo com que as partículas de poeira parecessem dançar majestosamente através da luz amena do fim de tarde. O gato em repouso no canto do sofá, você no seu canto e eu no meu, o canto baixo da voz de Cícero encantando os cômodos da casa. Era silêncio, não falávamos nada, mas não era incômodo – era a plenitude daquilo que se chama de amor.

Ah, o que dizem os silêncios? A ausência de palavras pode ser cortante como uma faca afiada ou macia como os lençóis lavados pela avó. Tal qual como o lençol, pode acalentar ou enforcar – já vi mortes instauradas por vocábulos jamais proferidos. Profano, é também essa incógnita chamada silêncio.

Ah, que lascivo é aquele silêncio que preenche o ambiente quando dois olhos se cruzam denunciando desejo, quando respirações se misturam fazendo a pele, a cabeça e o coração se juntarem num uníssono pedido mudo de sim, eu te quero tão bem, eu te quero também.

Entre todos os questionamentos que envolvem o silêncio, eu encontro a resposta nesses que acontecem entre as poeiras da sala no fim de tarde – não precisa dizer, é amor. Quando duas – ou mais – pessoas conseguem dividir silêncios sem nenhum constrangimento ou desconforto, pode rir baixinho pra si mesmo – é o mais puro amor.

Dividir hiatos de palavras por longos períodos é para poucos – somente para os que tem certeza. Nada precisa ser anunciado, afirmado, repetido o tempo todo – você sabe, sabe tanto que apenas contempla. Contempla cortinas esvoaçantes, abraços longos, paisagens bonitas, momentos singulares.

Palavras são importantes, essenciais. Mas o silêncio, quando dividido sem incomodar na cabeça e no coração, fala mais alto que qualquer eu te amo cravado na parede ou sussurado ao pé do ouvido. Afinal, amar é isso: entender a solitude do outro, para que palavras não sejam apenas palavras, para que o amor não seja uma pergunta, para que ele apenas seja.

TEXTO DECristina Souza
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