O perdão da traição

Lembro da primeira vez que fui traída por um namorado. Na verdade lembro de todas, porque infelizmente esse não é o tipo de coisa que se esquece. E a cada traição, dói como se fosse a primeira. Imaginar a pessoa que você ama e se dedica, dando os mesmos beijos que dá em você, em outra pessoa é de partir o coração. É difícil pra caralho. Dói mesmo. Chega a ser uma dor física.

E da mesma forma que já fui traída, também já perdoei traição. E porque eu perdoei? Porque eu sou otária? Eu mereço ser traída se eu resolvo perdoar? Eu não me amo? Eu sou chifruda, corna, burra? Não. Eu perdoei porque botando na balança hipotética da vida, as qualidades daquela pessoa pesavam mais do que um erro isolado.

Nunca me casei e talvez não seja a melhor pessoa pra falar do assunto, mas acredito que quando você ama tanto alguém a ponto de querer oficializar esse amor em todas as instâncias possíveis, de Deus à juiz, vocês viram uma pessoa só. E os problemas daquela pessoa se tornam seus problemas também. Você aceita trabalhar e lidar com as mijadas fora da bacia ao invés de simplesmente trocar a pessoa por outra no primeiro obstáculo. Porque ela também fará isso por você. É na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, não é? Então que realmente seja na prática. Um casamento não se faz só da teoria dos votos matrimoniais na frente do padre.

Se existe uma verdade sobre o ser humano é que ele não é absoluto. As pessoas não são perfeitas e elas erram. Erram pra caralho! Em um relacionamento vão errar ainda mais que isoladamente. É complicado ser, agir e falar quando tudo o que você fizer ou deixar de fazer, afeta uma segunda pessoa. Você não é mais uma pessoa apenas, você é duas e às vezes durante todo esse processo de entendimento as pessoas se embananam e aí elas…. erram. Aceite, as pessoas erram o tempo inteiro! Mas a notícia boa é que, se elas quiserem, elas se arrependem e aprendem com os seus erros.

O importante em um relacionamento não é você buscar alguém com as qualidades que você considera essenciais. Amar qualidade qualquer um vai amar. Tente buscar alguém cujos possíveis erros, você esteja disposta a enfrentar. É aí que está o amor. Até nos piores momentos, até na merda total, você ainda ama aquela pessoa e escolhe lutar não por ela, mas com ela. Vocês viraram um só, lembra? A luta é conjunta, mesmo que a rasteira tenha vindo de um de vocês.

Você não perdoa traição? Ok. Mas o que você perdoa? Alguma coisa tem que ser. Porque se você espera encontrar o Sr. Perfeição, tenho más notícias pra você. No mundo de fantasias, o príncipe perfeito no cavalo branco te resgata do dragão e vocês vivem felizes para sempre. Na vida real, o príncipe chega num pangaré, com o cu todo assado de tanto cavalgar e quando desce do cavalo te dá um chute na cara e apesar do seu nariz sangrando você aceita viver feliz para sempre e infeliz para sempre também com ele. A vida real pode não ser tão perfeita, mas pode ser linda apesar das falhas e tropeços.

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As pessoas tentarão o tempo inteiro dizer como você deve viver a sua vida. Como você deve pensar, agir, ser, e até como deve amar. Te crucificarão por decisões que só deveriam interessar à você e a quem essas decisões envolvem. E elas fazem isso por se importarem com você? Não! A sociedade do espetáculo está cagando baldes para a moral e os bons costumes. O que essas pessoas querem é ver sangue, ver barraco de vidas que não são delas (as delas, nem pensar), querem botar lenha na fogueira e ver tudo explodir para assistirem confortáveis de seus sofás enquanto suas próprias vidas são um amontoado de caos e desordem que elas não consertam por estarem mais preocupadas com a dos outros.

“Pessoas perfeitas, santos canonizados, já podem guardar as pedras!”

 

[Editado] Se você chegou até aqui e não entendeu que o texto não está defendendo traição, e sim o direito de cada um perdoar o que quiser (inclusive traição), volte ao topo e recomece a leitura até conseguir entender. Faça um esforço. Nós sabemos que você é capaz. Ou não.

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Por: Marina Barbieri
Publicado em Deu Ruim

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