O mito dos relacionamentos: Será que toda mulher quer casar?

De acordo com dados obtidos pelo IBGE em pesquisa realizada no ano de 2010, existem cerca de 56 milhões de pessoas casadas em nosso território nacional. Já entre o total da população masculina, 47,6% dos homens estão casados em comparação com os 44,2% das mulheres. Tal diferença ocorre por conta do percentual de 2% a mais de mulheres que existem em comparação aos homens. Isso pode até parecer pouco, mas dado que a nossa população é formada por aproximadamente 190 milhões de pessoas, haver 4 milhões de mulheres a mais por aí não é pouca coisa.

Em geral, quando tais dados são analisados, sejam em jornais, revistas, entre outros, surge a problemática quase que unânime de que o percentual de 2% na diferença entre a quantidade de homens e mulheres na população brasileira seria um problema enfrentado pelas mulheres quanto à procura de um parceiro do sexo oposto. Neste sentido, elas estariam em desvantagem porque “falta homem no mercado” e também porque na sabedoria popular fruto de um forte e enraizado patriarcado, seria parte da natureza feminina almejar um relacionamento sério ou compromisso estável com o sexo oposto.

No entanto, o que aconteceria se nos deparássemos com a hipótese de que existem sim muitas mulheres que não buscam estar num relacionamento estável e muito menos focam seu futuro nesse tipo de desejo? É bem provável que seria criada uma imagem, muitas vezes difundida, de que as mulheres mais independentes e auto suficientes seriam pessoas egoístas e desalmadas que partem corações por aí.

Não só. Também o que podemos ver em demasia por aí são comentários cujo cerne gira em torno do pensamento de que todas as atitudes da mulher deveriam ser adequadas ao desejo masculino, como se o valor delas apenas dependesse da aprovação de varões. “Homem não gosta de mulher autossuficiente”, “homem não quer ter um relacionamento com uma mulher que só foca na carreira e esquece de ser feminina”, “Se você continuar desse jeito (coloque aqui qualquer característica que não combina com o gênero feminino de acordo com padrões patriarcais) não vai arranjar marido”, “Tenha paciência com ele, conserva esse porque depois não arruma outro”, “Poxa, você ainda está solteira? Logo arranja alguém legal.”

O que responder a estes comentários quando a mulher simplesmente não quer ter um relacionamento? Talvez a imagem de uma pessoa do gênero feminino querendo focar na vida pessoal e profissional antes da amorosa ainda não seja bem aceita mesmo após todas as conquistas femininas e a Revolução Sexual dos anos 60.

Talvez ainda seja muito complicado para algumas pessoas aceitar que a vida de uma mulher não gira em torno apenas do cliché de um marido, 2 filhos e um cachorro. Que, acredite ou não, nem toda mulher quer casar. Ainda serão necessários muitos anos e talvez uma consciência coletiva de que atualmente as mulheres não precisam mais focar apenas em seus relacionamentos justamente porque tem a chance de serem mais independentes social e economicamente. Me poupem dos comentários ofensivos e generalistas que falam sobre TODAS as mulheres serem interesseiras e apenas quererem estar num relacionamento por interesse. Hoje nós temos a oportunidade de focar na vida profissional, pessoal, numa religiosidade que talvez custe um celibato ou apenas a escolha de cuidar da própria vida antes de juntar as escovas de dente com alguém. Qual o problema?

Quanto clichê junto, não? De qualquer forma, devemos muito mais nos ater a uma falta de compreensão dos anseios femininos – que não englobam apenas ter um relacionamento com alguém do sexo oposto (até porque é mais do que natural existirem moças que curtam moças, por que não?), bem como a uma situação geral de uma modernidade líquida, como diria Zygmunt Bauman do que numa visão esteriotipada de mulher dependente que precisa de um homem para sustentá-la.

Talvez você aceite ou não, mas nem todas as mulheres do mundo buscam um relacionamento estável e nem todas as mulheres do mundo curtem pessoas apenas do sexo oposto. É claro que tais esteriótipos estão enraizados em nossa cultura patriarcal e preconceituosa, além de muitas vezes ser misógina. Mas não é nada que não possamos desconstruir lentamente.

TEXTO DEMarcella De Carvalho
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