O mito da dependência feminina

“Mulheres querem um homem rico para sustentá-las”; ” Mulher gosta mesmo é de dinheiro, quem gosta mesmo de homem é gay”; “Fique esperto com o golpe do baú/barriga”; “Se você tiver um carrão, vai chover mulher pra você”.

Será realmente que essa conversa fiada cola? É mais pertinente refletir sobre o assunto antes de tecer esse tipo de comentário estereotipado acerca de cenários que não condizem com a realidade.

Sabemos que, depois de uma série de fatos históricos, o papel feminino deixou de ser essencialmente doméstico, como o bom e velho patriarcado gosta. De acordo com a obra Sexual Arrengments, de Janet Reibstein e Martin Richards, sem tradução para o português, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, os casamentos deixaram de ser essencialmente contratos de interesse mútuo para serem justificados pelo amor e paixão entre os casais.

Isso parece ser um tanto quanto lógico se pensarmos em toda a aniquilação causada pela guerra, tanto em número de mortes quanto pela destruição da economia dos países. A maioria das pessoas perdeu tudo, então para que casar com alguém por interesse/dependência econômica sendo que até mesmo esta pessoa estaria sujeita a perder tudo de uma hora para outra? Melhor seria casar por amor, tendo em vista que a morte estava batendo na porta e brincando com as crianças do vizinho.

Não só. Adicionado a este contexto, as mulheres começaram a ser convocadas para os postos de trabalho até então ocupados pelos homens, uma vez que eles estavam se aniquilando nos campos de batalha.

No entanto, as mulheres só foram alcançar maior liberdade com as melhorias tecnológicas da década de 1960, a qual trouxe consigo a pilula anticoncepcional como o método mais eficaz ante a contracepção. Isto quer dizer que todo o feminismo iniciado no século 19 estaria obtendo enorme avanço por conta das melhorias tecnológicas e científicas que eclodiram, finalmente, na tão sonhada independência sexual e financeira, mesmo que esta ocorresse gradativamente. Isso se mostra como consequência das mulheres terem mais autonomia em relação à escolha de quando e com quem ter filhos, bem como o de poder planejar o próprio futuro, a própria carreira. De qualquer forma, devemos nos ater ao fato de que tais acontecimentos tiveram maior impacto na Europa e EUA.

Já aqui no Brasil, até meados dos anos de 1970, era comum que muitos maridos não permitissem que suas esposas trabalhassem, ou que mulheres não mais casadas sofressem um enorme preconceito por conta disso. Tanto é que, até o advento da Lei 6.515 de 1977, ainda existia a figura jurídica do “desquite”, termo este utilizado para conceituar o fim do casamento, no qual havia a separação de corpos e de bens, mas não do vínculo matrimonial. Isso quer dizer que, mesmo havendo a situação de fato, ou seja, a de um típico divórcio, os desquitados nunca mais poderiam se casar, sendo que tal pena era bem pior para a mulher. Muitas eram até mesmo consideradas como “mulheres fáceis” já que não estavam sob o manto de uma proteção masculina.

Não só. Se formos aprofundar um pouco mais na tão sonhada igualdade, aqui no nosso país, a mulher só alcançou os mesmos direitos e deveres que o homem a partir da Constituição Federal de 1988, a qual estabeleceu que todos seriam iguais perante a lei. Até então, as mulheres ficavam sujeitas aos “cuidados” de pais e maridos, não podendo nem mesmo gerir o próprio patrimônio.

Houve muita luta e ela culminou na nossa tão sonhada emancipação. Viramos o jogo no que diz respeito a uma suposta dependência feminina. Hoje nós ganhamos espaço social e econômico, mesmo que ainda haja diferenças entre os salários ganhos por homens e mulheres que encontram-se em cargos equivalentes ou agressões físicas, emocionais e sociais em razão do gênero. Ainda temos muito a conquistar, mas estamos caminhando.

Porém, apesar disso tudo, de tanta emancipação, ainda existe aquela imagem de que as mulheres serão as eternas princesinhas do papai ou as que buscarão se casar com alguém que as sustente por puro interesse ou dependência. Por favor, né? Interpreto muito mais esse tipo de conduta como sendo uma característica individual do que algo institucionalizado do sexo ou gênero feminino. Querer tirar vantagem de uma situação financeiramente mais cômoda é muito mais uma conduta de alguém, seja homem ou mulher, que prefere se aproveitar do esforço alheio por falta determinação, do que por nascer sendo detentora de seios ou ovários.

Hoje nós conquistamos espaços, visibilidade e voz. Hoje nós podemos sair na rua sem que um homem nos acompanhe para ir na padaria. Hoje nós podemos caminhar sobre as próprias pernas e construir a própria história. Então, depois que conquistarmos o mundo, você reflete sobre sermos tão dependentes ou interesseiras assim, ok?

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