O manifesto da mulher solteira

Recentemente saí com uma turma de amigos recém solteiros. O pior tipo, diga-se de passagem, porque de solteirice eu entendo bem. Estou há um ano lutando contra o preconceito do status e dos olhares de pena. Os recém solteiros não passam por isso. De jeito nenhum. Eles podem tudo. Eles podem trocar noites por dias, musas por criaturas, beijos por telefones, não têm hora para voltar e fazem amigos em qualquer esquina.

Quanto a mim, sou bombardeada diariamente pela curiosidade alheia de por que cargas d’água ainda não expus um macho para chamar de meu. Sinceramente, sinto inveja desse aval da sociedade que diz “Vai lá, campeão! Você merece essa folga!”. Só tenho direito as frases de provérbio chinês de biscoitos da sorte e ao horóscopo impresso em jornal velho. Mulher solteira por um ano ou mais não é escolha, é problema.

Mas o problema mesmo foi quando me peguei acreditando nisso. Me cobrei por noites em claro a resposta de não ter a facilidade de um namoro engatilhado. Me questionei por horas a fio o que havia de errado comigo. Então, me forcei a me envolver, a gostar. Me forcei a enxergar os pontos positivos e jamais listar os defeitos. Às vezes, me senti um tanto Amélia e um tanto adolescente. Eu sentia que precisava ter alguém e, não, que queria ter alguém, e mesmo assim, insisti fervorosamente. Fui catequizada pela premissa de que eu havia ficado pra titia.

A verdade é que chega uma hora que cansa. Essa vida adulta que por vezes me parece precipitada, também sufoca. E assusta. Honestamente, acho que nutri o desejo de estar com alguém mais pelo medo de ficar sozinha do que pela vontade de uma vida a dois. Porque, sinceramente, ficar solteira é ousadia, mas SER solteira é um ato de coragem. É quando você não se sente incompetente por terminar o ano sem o beijo da virada, nem se sente excluída por não participar de reuniões em que estejam só casais. É também não se sentir constrangida em dizer há quanto tempo está nessa fase e assumir o controle da reviravolta por saber que isso acaba quando você quiser. Na realidade, ser solteira é ser livre, ser leve, no verdadeiro sentido da palavra.

Relacionamento sério mesmo, eu não quero com ninguém, nem mesmo com o homem da minha vida. Aliás, principalmente não com o homem da minha vida. Eu quero que essa leveza se perpetue, essa paz de espírito proveniente da segurança de saber quem eu sou, mesmo estando sozinha, se fortaleça.

Quero um relacionamento patético em que se torne impossível terminar uma discussão sem transforma-la em piada. Quero um relacionamento estranho em que a gente crie um código para falar em público. Quero um relacionamento infantil em que vamos trocar a cozinha gourmet por um cento de salgadinhos com coca. Eu quero um relacionamento que seja tempestade em dias calmos, e que me faça sentir algo, o que quer que seja.

Quero um relacionamento financeiro munido da estabilidade de planos e, não, de dinheiro. Deixo a seriedade pras horas em que é vital; ao meu lado só quero aqueles que vão rir quando eu tropeçar ou inventar apelidos pro meu terrível corte de cabelo. Que seja tudo isso, mas que, por favor, não seja sério.

E, honestamente, prefiro esperar pelo tempo que for por alguém que me faça feliz dessa forma do que me sujeitar a essa mania visceral de alimentar o perfil de mulher “namorável”. Não me culpo mais por gostar de algumas noites na balada, nem mesmo pelo o que eu bebo ou o que eu visto. Gosto de não ter que dar satisfações sobre a minha vida, de aceitar convites inesperados, de tornar estranhos conhecidos após um jantar. Me livrei do peso na consciência por ver o sol nascer enquanto outros caminham. Eu gosto de ser dona dos meus dias; de fazer da segunda um sábado, da quarta uma sexta. Gosto de não me preocupar com meu celular descarregado dentro da bolsa porque tudo que eu preciso é o que tenho a minha frente. E de dançar até o chão tanto quanto assistir um filme de comédia romântica embaixo do edredom.

Ciúmes só tenho daqueles que descobriram isso há mais tempo do que eu, e desconfiança só por quem acredita que o caminho que têm como o melhor pra si, também sirva para os outros. Quanto a paixão, nunca a senti tão forte em toda minha vida. Aprendi a cuidar de cada uma das pessoas que entraram despretensiosamente, de cada lembrança cultivada entre porres e ressacas. Aprendi a colecionar amigos e, não, mágoas de relacionamentos anteriores. Desejo, inclusive, que todos aprendam isso mesmo após o mais sofrido término.

Sabe, são pessoas e pessoas. Pode ser que isso nunca seja o ideal pra você. Pode ser que você tenha se condicionado à necessidade de ter alguém sempre para se sentir bem consigo mesma. E se isso te faz feliz, te digo com todas as letras: vá em frente! A questão é justamente essa. Seja feliz, não seja um status nas redes sociais, nem um sorriso amarelo em foto. No fundo, você sabe que não precisa disso, assim como eu sei.

Mas a gente faz uma escolha, entende? No final, é só você e seu medo contra o mundo.
Mas se você não souber quem é, não vai importar quem esteja ao seu lado.

 

 

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Por: Samantha Silvany
Publicado em Bendita Cuca

 

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