O dia que eu aprendi a te ler

Se você souber lê-la, vai conseguir criar boas histórias. Não que ela precise de calma. Ela precisa de caos, eu sei. Muita calmaria vai faze-la adormecer de tédio. Seja seu caos, mas saiba respeitar os seus silêncios, também. Vai murmurar, vez em quando. Vai resmungar tantas vezes. Vai calar gargalhadas em risos miúdos, com beicinho tímido só pra não te premiar como a razão dos seus sorrisos.

Mas se você soube diferenciar suas euforias, vai conseguir criar boas alegrias.

Mas ela teima em ser triste, também. Diz que é coisa do signo, do clima do inverno, da sombra da goiabeira, do trabalho ou coisa assim. Vai sempre ter motivos para reclamar da vida. É um jeito meio meigo que ela tem em sempre querer algo para melhorar o momento. Ela sempre vai querer o melhor.

O teu, o do mundo e, principalmente, o dela.

Ela só vai precisar acreditar que tudo ficará bem, que você estará por ali para caso o mundo todo cair, entende? E você nem precisa ser forte ou coisa assim. Mas tenha um par de braços calorosos.

Ela odeia o frio. O vento que assusta as janelas. Mas, vira e mexe, vai vê-la toda linda encasacada, com meias grandes e touca colorida sorrindo com uma caneca de chá pelas mãos. Sempre pelas mãos. Ela tem mãos pequeninhas, então, quando segura canecas precisa das duas para conseguir equilibrar tudo.

Mas sabe desequilibrar, também.

Uma vez, bêbada, caiu no chão de uma rua escura e, enquanto todos tentavam levantá-la, ela apenas sorria e dizia você-já-viu-a-lua-como-é-grande-daqui?

Eu tenho uma foto desse dia até hoje.

Com ela é assim: asfalto vira cama kingsize, caneca vira balde, dia frio vira passarela de modelo e até touca de trombadinha vira coroa de flores ou algo assim.

Se você souber acompanhar suas mudanças climáticas, vai conseguir ser a razão dos seus verões foras de época.

Fonte: Hugo Rodrigues

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