O amor não é pontual. Aliás, não deve ser.

“Cê acha que já chegou na parte boa da sua vida? ”

“Não. ”, ele nem pensou para me responder. Mas o engraçado é que não foi uma resposta amargurada, frustrada, com aquela saturada rispidez de quem esconde muito do que já passou. Foi um “não” cansado, derrotado. Como quem pergunta para si mesmo: o que eu estou fazendo de errado?

Era relativamente alto, relativamente bem-sucedido e relativamente feliz. Na média. Uma vida comum. Mas a essa altura, já tendo conquistado boa parte de suas ambições juvenis, viajado para lugares incríveis e tirado o melhor proveito de seus atributos físicos, ainda assim, não se sentia completo. Já havia me confessado que seu maior sonho era ser pai, ter uma família. Tudo conforme manda o figurino, afinal, tinha seguido esse script por toda sua vida e não sabia em que momento entrara nessa disputa férrea contra o tempo.

Já cheguei a pensar que esse medo pertinente de envelhecer sozinho fosse exclusividade das mulheres, depois entendi que não tem nada a ver com gênero ou orientação sexual, e sim, com maturidade emocional. Digo isso porque na adolescência fui o ombro-amigo de diversos corações partidos, quase todos pelos mesmo motivos: traição, falta de respeito, ciúmes. E à medida que fomos crescendo, os relacionamentos passaram a acabar por desgaste. Quem quer todas suas tentativas de acerto, conversas construtivas, desapegos e autoconfiança resumidos em apenas desgaste? Me parece pouco demais diante de tudo já vivido. Mas quando se esgotam as possibilidades de dar certo com alguém a longo prazo e você decide abraçar a derrota pra encontrar alguma paz de espírito, se torna até confortável aceitar que o relacionamento perdeu a elasticidade e não tinha mais como se expandir.

Então, de certa forma, ele não tinha medo de atitudes que lhe surpreenderiam, nem de brigas que o deixariam acordado por noites a fio. Ele tinha medo de não sentir mais nada, de não encontrar por quem valesse a pena complicar sua vida. Imagino que enquanto você tem um leque de opções – mesmo que superficiais – pra não se sentir sozinho, você não enxerga o peso que suas decisões tem sob seu caminho. Descarta alguém por não ter o estereótipo adequado, o sotaque que lhe agrada, um emprego de respaldo. Às vezes, descarta alguém por meramente não cumprir qualquer um dos seus pré-requisitos como se fossem guardanapos gastos. Não dói na gente tanto assim. Quer dizer, não dói tanto quanto ser descartada por alguém que não viu potencial em nós. Mas, no fundo, ninguém tem culpa por não se envolver mesmo com quem parece merecer.

Para o meu parâmetro de felicidade, ele tem tudo. Menos alguém. E, honestamente, para mim, se relacionar nunca foi uma prioridade, mas uma consequência, ou melhor, uma recompensa por suas atitudes, por se sentir bem consigo mesmo, por suas conquistas. Mesmo sem provas, eu acredito nesse placar imaginário de acertos. Quanto mais você progride, mais o universo lhe recompensa. E um relacionamento saudável se faz de diversas partes individuais que atuam em conjunto, por exemplo, você ser focado em aptidões ou estudos ou trabalho. Do contrário, se toda sua vida se centralizar em uma pessoa, você acaba por saturá-la com suas inseguranças ou simplesmente com um eventual mal humor. Pessoas precisam ser livres, mesmo quando acompanhadas e lutar por suas próprias ambições, além daqueles que constroem a dois.

Ele sabe o que quer agora. Uma maturidade que só se conquista com o tempo, um punhado de decepções e o declínio da esperança de que almas gêmeas existem. Ele vai encontrar, sei disso porque ele quer isso. Porque ele parou de dar ouvidos ao que as pessoas acham que devia fazer, parou de se preocupar em jogar nas redes sociais e passou a fazer aquilo que tinha vontade, mesmo que uma vozinha no fundo lhe gritasse para ter orgulho. Se tem uma coisa que ele não precisa ter, é orgulho. Sei disso porque ele se esforça pra isso. O mesmo esforço que antes tantas outras garotas o imploraram para fazê-lo e ele se recusou veementemente. Achava que tinha todo o tempo do mundo, achava que tinha o mundo todo a seu tempo.

O amor não é pontual, ele sabe disso agora. O esperou entre tantos desencontros casuais que enrijeceu suas convicções a procura de alguém flexível. O que ele talvez não saiba é que o amor é generoso, e se expande a cada vez que você se permite doá-lo. Quanto mais você dá, mais você tem. E, isso sim, não tem idade certa para acontecer. Logo, cada pessoa tem seu próprio relógio biológico do qual nunca tomamos conhecimento. Mas com o qual lutamos, às vezes por anos, na esperança de fazê-lo parar ao nosso comando. Acontece que saber o que a gente realmente quer é a liberdade no ponto mais alto da alma. Tem muito a ver com o tempo que decidimos investir, e não com a insistência de vê-lo passar confortavelmente confiante no destino ou, sei lá, em um milagre. Maturidade emocional é quando nos tornamos inteiramente responsáveis por nossa felicidade. É quando a gente entende que o amor não deve ser pontual, e sim, um estado de espírito constante.

FONTEBendita Cuca
TEXTO DESamantha Silvany
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