O amor e o orgulho

Maria descia a ladeira carregando uma certa malícia no corpo e no sorriso, saberia que em poucos minutos estaria no ponto do ônibus e trocaria olhares com o João, por quem tinha uma admiração secreta.
Ajeitou a alça fina do vestido de seda estampado, passou os dedos do meio da mão entre os cabelos, olhou a hora pelo visor do celular e apressou o passo.

Na calçada oposta, João ajustava a camisa preta que marcava seus braços, enquanto tirava da mochila os óculos escuros – uma espécie de comparsa fixo que permitia observar a mulher desejada sem ser notado – e o colocou na face, ajustando-o com o dedo indicador ao topo do nariz, deu um sorriso de malandro esperto com o canto da boca e seguiu.
Não demoraram mais que cinco minutos e estavam bem próximos, quase lado a lado.

Já no ponto de ônibus, Maria olhava fixo para a avenida a diante e João a observava por trás do degradê dos óculos com um certo desejo. Ela mexia nos cabelos e os ventos daquela manhã levavam um perfume suave ao encontro do João, que sentado logo atrás, era sufocado por pensamentos, as vezes, maliciosos. Maria, como toda mulher, sabia provocar. Com a pele suave, balançava um pouco os ombros na intenção de fazer com que a alça fina do vestido dançasse pelo seu ombro vagarosamente como se uma valsa fosse e após uns três minutos, tocava parte das costas com a mão onde as unhas eram pintadas de vermelho, levantando-a até a parte próxima ao pescoço e como quem não queria nada, deixava o queixo tocar a ponta do ombro, onde abria um sorriso discreto.

Ela em momento algum olhava para trás, mas tinha total certeza que deixava aquele homem hipnotizado. João, numa espécie de transe hipnótico, ensaiava alguma espécie de diálogo, que não conseguia ser verbalizado e como seu ônibus era sempre o primeiro a passar, ele aproveitava essa oportunidade como sua chance em ser notado. Em algumas manhãs, esbarrava propositalmente de leve na moça e logo em seguida, tocava-lhe suavemente a mão com um pedido de desculpas, e então, sem muito esforço, a não ser o essencial para ser notado, levantava um dos braços e como se em um concurso de fisiculturismo estivesse, os tríceps eram acionados para surpreender, pensava que era esse o principal atributo que iria encantar Maria. Era ele sempre o primeiro a subir e já no ônibus, sentava quase todos os dias na mesma poltrona, em frente a visão da mulher desejada. Olhava para baixo, passava a mão na testa, ajeitava o topete e fazia a cara de pouco interesse. Na parada o coração de Maria acelerava e minutos após, era sua vez de seguir seu destino.

A vida permitiu aos dois vários encontros diários, um jogando charme e malícia ao outro, mas nunca, um olá, um bom dia.
Maria, dona da sua beleza, não permitia descer um degrau para que a simpatia a tornasse ainda mais bela.
João, dono de uma certa dose de cafajestice e um corpo sarado, esperava sempre pelo sinal do lado oposto, que nunca viera.
E a vida seguiu. Dias ensolarados e chuvosos apareceram, Maria surgiu com um guarda-chuva preto de bolas brancas e roupas mais comportadas, o rapaz, em certas épocas usou também uma bermuda clara e uma camisa de linho verde. Ambos se notavam, se desejavam, mas não se permitiam e como em qualquer caso onde o orgulho fala mais alto, foram aos poucos perdendo o interesse em apressar o passo, em se encontrar.

Passados alguns meses, Maria já não acelerava mais o passo e João, já não se esforçava para ser o primeiro a subir no ônibus. Maria já tinha cortado os cabelos na altura do ombro e João carregava uma tatuagem com suas iniciais, na parte interna do antebraço. Maria Mudou. João também.
Anos depois, ela casou com o Antônio, mas não é feliz. João, não, continua solteiro.
Vez ou outra, Maria aparece em seus pensamentos.
Já Maria, pensa sempre no João, mas não há muito o que ser feito.
O universo deu a chance, era dever de ambos terem aproveitado.
Talvez João e Maria não tivessem dado certo. Ok, mas a dúvida não os atormentaria até hoje.

FONTEDeu Ruim
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