O advogado veste Prada

Bem vindo ao universo jurídico,

somos uma área de uma riqueza cultural ímpar e de uma relevância social assombrosa. Somos, basicamente, o que movimenta um dos três poderes.

Somos acadêmicos, intelectuais, advogados, estagiários, defensores, promotores, servidores, procuradores, magistrados. Somos aqueles que defendem as pessoas, as instituições, a sociedade. Aqueles que aplicam a lei, que discutem a lei, que questionam a lei e que gritam com a lei se for necessário. Somos essenciais para a sociedade e sabemos muito bem disso.

Sabemos tão bem disso que quando entramos na faculdade nos sentimos tão fantásticos que tratamos os outros cursos universitários como resto. Essa gente de história, de ciências sociais, de enfermagem, odonto, relações públicas, publicidade, física. Eu, hein. Talvez os da medicina, da economia e da engenharia sejam dignos de jantar conosco daqui uns 10 anos. Ou não, ainda não sabemos.

Somos realmente incríveis. Aprendemos algumas expressões em latim- que frequentemente pronunciamos errado, mas quem precisa se preocupar com isso é esse povo de letras- que jogamos ao ar aleatoriamente, como purpurina. Usamos expressões que ninguém mais entende. Falamos em código, não nos preocupamos se os outros nos entendem, usamos praticamente somente siglas: CPC, MPT, CDC, TRF, ACP, CTB, HC, TJSP, CPP, STJ, CLT, LC, PGE, MPF, TST, CTN.

Somos tão fantásticos que decidimos viver em universos paralelos. Tribunais, escritórios, universidades. É quase um neo sistema feudal. Temos nossos falsos nobres, que são vistos como nobres e que têm certeza de que são nobres. São conhecidos pelos seus sobrenomes, que ao invés de estamparem brasões, estampam folhas timbradas, carimbos e assinaturas eletrônicas. São nossos semi-deuses. Ninguém pode tocá-los, seus nomes são sagrados e dignos de uma admiração quase doentia. Eles são o caminho, a verdade e a vida.

Somos muito elegantes. Gastamos cerca de 40% de tempo em que poderíamos discutir formas de melhorar o mundo com o direito, discutindo a marca da bolsa da nova advogada do escritório. Rindo da meia mal escolhida do advogado da parte adversa. Tentando enxergar se os óculos da juíza são Chanel ou Prada. Debochando do defensor público que nunca saberá a diferença entre um Ferragamo e Zegna. Quando viajamos, preferimos gastar um pouco menos nos passeios e nas refeições para podermos comprar aquelas peças maravilhosas da Burberry que provam o quão somos competentes como profissionais.

Nós damos o exemplo de postura porque sabemos o que é certo e o que é errado. Sabemos o que respeita a dignidade humana e o que não respeita. Por isso advogados homens nunca fazem comentários sobre a bunda da nova estagiária, mas só sobre a performance dela como profissional. Por isso nos almoços dos juízes nunca há piadinhas sobre aquele juiz que parece ser gay. Por isso grandes escritórios contratam estagiários esforçados que moram na periferia e estudam numa faculdade que não é “top” ao invés de contratar o sobrinho do desembargador que estuda numa particular carésima, mas que gosta mesmo é do bar e das festinhas da facul. Por isso as advogadas nunca riem daquela advogada obesa que está fazendo doutorado enquanto elas nem acabaram a especialização. Por isso nos mantemos sempre longe da política suja e corrupta. Por isso desconhecemos o conceito de “favorzinho”.

Somos fortes e seguros de nós mesmos. Nos escondemos dentro de carros de marca para compensar que nunca decoramos quais são os direitos fundamentais de primeira, segunda e terceira geração. Não aceitamos jeans na sexta-feira casual porque o tecido da calça é o grande diferencial do saber jurídico. Ainda estranhamos piercings, dreads e tatuagens porque somos vintage, gostamos de brincar de estar na década de 60. Julgamos colegas pela marca da caneta e não pelo que sai dela.

Somos informados. Sabemos muito sobre o novo Código de Processo. Mas, em tempos de guerras e refugiados, não temos tempo para essas baboseiras de Direitos Humanos. Também não tivemos tempo de ler sobre a Lava Jato com calma, mas falamos com propriedade sobre delação premiada, matéria que colamos naquela prova de processo penal do terceiro ano.

Enfim, somos uma área realmente fantástica e riquíssima. Temos muito a acrescentar ao mundo. Mas frequentemente preferimos gastar tempo com coisas mais relevantes, como a nossa escalada na carreira, a nossa imagem impecável e nossa tão soberana vaidade. Cada um com suas escolhas. Não é pobreza de espírito. São apenas as nossas prioridades.

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(a autora é uma advogada e professora universitária, apaixonada pelo Direito, que tem muito orgulho da sua profissão, em quem algumas carapuças desse texto também servem, mas que está tentando livrar-se delas, e que assim como tantos outros, está cansada de compactuar com um universo tão babaca como este no qual estamos inseridos)

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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