Ninguém basta a si mesmo. Nâo nascemos para ser sozinhos

Por: Rebeca Bedone
Publicado originalmente da Revista Bula.

Imagine uma senhora bem humilde, nos seus 75 anos, que já passou pela viuvez, e, depois, perdeu um filho em um acidente de trânsito. Recentemente, ela começou a fazer faxinas para ajudar a pagar o tratamento da doença do seu outro filho. Em seu sorriso cansado, você enxerga dor, muita dor. Dói-lhe o diabetes descompensado, a falta de dinheiro e a incerteza de um futuro. Em seus olhos profundos, atrás da cortina do seu sofrimento, você tenta imaginar como são as feridas que sustentam a alma dela, lembrando-lhe que desistir não é uma opção.

Foi com essa sensação que, certa vez, conheci uma mulher e sua filha com sequela de paralisia cerebral. A menina, na sua pequena cadeira de rodas, sorria para mim de seu mundinho particular. O cuidado carinhoso da mãe e a limitação da garota apertaram o meu coração, que se expandiu quando a mulher falou que aquela criança era uma benção na sua vida. Um amor sem limitações: “minha filha me ensina a ser uma pessoa melhor a cada dia”.

Outro dia, li uma reportagem em que um casal adotou um gato sem uma perna. Após um ano procurando, os pais viajaram até outra cidade para buscar o bichinho de três patas que se tornou o melhor amigo da filha, uma menininha que sofrera a amputação de um dos braços por causa de um câncer.

A vida perfeita é uma ilusão. Percorremos descalços pela estrada de paralelepípedos desalinhados da nossa existência: os pés machucam, e sangram; desistem, e param. Mas seguimos o caminho porque as cicatrizes nos mostram que ainda suportamos. Cicatrizes não são lembranças da morte, elas são as marcas de nossos milagres.

Stephen Hawking nos ensinou que não importa o quanto a vida pode parecer ruim, sempre existe algo que possamos fazer, e conseguir. Tomemos como exemplo a história de vida dele e olhemos para as batalhas internas de cada um de nós. Ainda, abracemos todas as nossas imperfeições e dores e buracos negros, e sigamos o conselho desse grande físico: “lembrem-se de olhar para as estrelas lá no alto e não para seus pés lá embaixo”.

Parece inexplicável a força do ser humano que surge através do caos, do medo e da dor. É como tentar entender a teoria de como o universo começou e se ele é infinito ou não. Entretanto, sabemos que o mais profundo sofrimento faz nascer esperança: não temos certeza de nada, mas acreditamos que estamos aqui por algum motivo.

É assim que olho para o casal que não conseguia ter filhos e adotou duas irmãs doentes; e para o paciente idoso que é acompanhando em todas as consultas médicas pelo vizinho, um moço que fica sensibilizado pelo velho que não tem parentes e mora só.

A nossa alma é pesada como um barco que afunda e leve como a borboleta que flutua. Somos um universo de aprendizado em expansão, mesmo quando não compreendemos de onde vem essa força, vontade e alegria de viver. E mesmo que os nossos passos sejam doídos pelos caminhos tortuosos da vida, ainda podemos endireitar o nosso olhar: sozinhos, podemos; juntos, conseguimos.

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