Não existe amor gay

É difícil precisar quando comecei a sentir interesse por garotos. Talvez tenha sido enquanto colecionava revistas e cds dos Backstreet Boys, lá pelos meus 11 anos, ou até antes disso, quando chamava o menininho da creche de namorado sem saber ao certo o que os namorados faziam.
É difícil porque as memórias se cruzam, algumas se perdem e o que eu sinto é que aquilo sempre esteve dentro de mim. Sinto isso porque realmente sempre esteve. A minha sexualidade sempre fez parte de mim, antes mesmo que eu pudesse saber o que era sexualidade. 

Nunca houve um momento em que eu tive que fazer uma escolha entre gostar de meninos ou de meninas. Eu era uma menina que gostava de meninos e torcia para que eles gostassem de mim de volta. Simples assim. Às vezes acontecia e segurávamos nossas mãos no pátio da escola. Outras vezes não e eu chamava as minhas amigas para batermos nele.
Para mim, meninas sempre me foram sinônimo de possíveis amigas. E quando não, no máximo desafetos, ou rivais de sabe-se-lá-o-que. Mas nunca namoradas.
Hoje, aos 27 anos, com toda a sinceridade que me cabe, admito que se pudesse escolher, escolheria namorar qualquer uma das minhas amigas, que sempre me foram mais leais e companheiras do que a maioria dos garotos com quem já me envolvi sentimentalmente. Mas, bem, para o meu azar não posso escolher. Ninguém pode.

Posso não saber tudo sobre o amor. E quem é que sabe? Mas de uma coisa eu sei: ele não é passível de escolhas.
Não amamos alguém porque devemos, queremos ou merecemos amar. Amamos por motivos que são grandes demais para caberem no nosso entendimento. Grandes demais para sequer possuírem um entendimento.
Talvez o amor não seja para ser entendido. Apenas sentido.
Mesmo que não faça sentido. Mesmo que não leve para nenhum sentido.

Todos os caras que eu amei na vida, eu amei sem forçar. Muitas vezes amei mesmo não querendo amar. E quando tentei forçar, obtive resultados pífios e me senti palhaça de mim mesma. Como forçar algo que só acontece através da espontaneidade?
É impossível. Para todos. Todos mesmo.

Caímos no erro de achar que as pessoas são diferentes de nós. Na maioria das vezes elas não são. Na maioria esmagadora das vezes elas sentem exatamente como nós sentimos. E em 100% das vezes em que elas amam, elas amam iguais a você, a mim e a todos que você conhece. E o mesmo vale para a dor que sentem, para os sonhos que possuem, e principalmente para os direitos que merecem.
É tudo gente. Não importa como ou à quem amem. Elas amam. E isso basta. Ou ao menos deveria bastar.

O que eu to querendo te dizer é que não existe amor gay. Não existe amor hétero também. E não existe amor certo, ou amor errado. Existe apenas amor.
Porque ninguém ama um sexo, uma categoria ou uma definição. Não é assim que o amor acontece.
Ama-se a pessoa. Ama-se a alma. Ama-se o inteiro, não as partes.
O amor é só amor. O resto é resto. Vê se você entende!

Ame! Ame bastante! Ame quem você quiser, quando quiser, como quiser. O importante é amar. Porque quem ama é feliz. E gente feliz não tem tempo pra julgar o amor alheio.

“Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo.”

(Aqueles dois – Caio Fernando Abreu)

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