Não, eu não sou a mulher dos seus sonhos

Nunca fui, acho. Nos enganamos bem demais, cegos por uma paixão inicial que, feito fagulha, mais que queimava: reluzia. Na verdade, até era divertido aquele jogo de tentar encaixar opostos tão complementares numa rotina que satisfizesse não somente a um, mais dois. Era um desafio dos grandes olhar com um pouco de espanto e pensar “puxa, mas e como ele consegue ser assim?” ou “nossa, mas que coisa mais maravilhosa ser tão diferente assim”. Claro, isso enquanto ainda dava tempo, a intimidade não inundava, invasora e entre nós paciência existia.
   O par de seios que você acha simplesmente “demais” como atributo feminino existe tímido demais dentre as qualidades que compõe o meu corpo. Detesto lavar louça, minha culinária se resume a arroz, bolo e massas diversas, morro de medo de animais de grande porte, sejam de campo, de praia, de cidade. Compro mais que posso e, recorda, muito te fiz esperar nas mínimas vezes em que me acompanhou nas aventuras por um par de saia ideal ou vestido perfeito praquela festa. Sentia uma preguiça abissal apenas de acompanhar você se vestir a cada manhã de sábado para ir a academia. Mas despertava, de boníssima vontade, e tomava café junto e assistia a algum filme na televisão porque, você bem sabe, meu instinto para marombada é quase abaixo de zero.
   Doceira convicta, me ressenti a cada negativa sua para que eu preparasse negrinho de panela depois do jantar – afinal, degustaria a sobremesa inteira sozinha caso fizesse. Fazia falta, mas aguentei no osso nunca comer pizza juntos ou qualquer outra besteirada. Por outro lado, achava ótimo não engordar nunca e, na minha cabeça, inexistir o risco de perder você pros pneuzinhos a mais. A sua tendência excessiva para emagrecer e a minha propensão a engordar fizeram um ótimo casamento, eterno enquanto durou. Com toda a força, desejo que encontre alguém que compartilhe com o mesmo drama e que não vulgarize apenas por vestir um short curto, fininha que só. Lhe compreenderia melhor, acredite.
   Apaixonada por crianças, fiz amizade com a sua meia dúzia de cães – mais por sobrevivência que por paixão, preciso admitir. Com o tempo, passei a gostar diferentemente de cada um deles e até mesmo me afeiçoei de verdade por alguns. A colisão, porém, entre o amor por pequenos humanos e o espírito cachorreiro que você possui, resultava sempre no desconforto de alguma das partes quando em contato com aquilo que tirava um dos dois de órbita. Minhas mãos, sempre com as pontas dos dedos congeladas eram também um contraste gritante frente ao seu calor de sempre. Quanto mais blusas e casaquinhos colocasse, mais era você aumentando o ar condicionado e me fazendo estremecer. Sem falar na mania, aquela de ser ingênua e acreditar em tudo que me é dito – piada, historieta, boato, suposição. Fica difícil contar nos dedos as vezes em que pediu que eu fosse mais forte se não o mundo passaria por cima. A verdade é que ainda estou aqui, cândida e viva.

Nasci numa família humilde, minhas habilidades automobilísticas inexistem, e o choro, essa minha facilidade, mais o irritava que comovia. Amo vermelho, você prefere azul. Sou dona de minhas crenças espirítuais e religiosas, você possui um dos ceticismos mais cabeça dura que já de perto conheci. E meus indies, bem, as minhas bandas prediletas também se cansaram de ser trocadas pela mesma surf music a cada viagem. Arctic Monkeys salvava, é verdade, uma pena que somente às vezes.

Não sou a mulher dos seus sonhos, peço que me desculpe. O sentimentalismo aqui é grande, a preguiça é um pecado que quase sempre impera e, você sabe, dormir não configura entre meus prazeres preferidos. Rendo melhor pela manhã, demoro a desligar na hora do sono. Troco de curso, de emprego, de casa e de amigos com a coragem que é marca registrada de nascença apenas daqueles que, acima de qualquer coisa, não possuem medo algum de ser felizes sem culpa.

Ainda bem, ainda bem, pensei comigo. Graças à deus que sou minha.

Fonte: Camila Paier

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