Meu nome é Ana. Eu tenho 33 anos, sou mãe de 2 filhos e sofro de ociofobia

Por: Karen Curi
Publicado originalmente da Revista Bula.

Oi, meu nome é Ana. Eu tenho 33 anos, sou mãe de 2 filhos. Estou aqui para falar que eu sofro de ociofobia. Sim, eu confesso. Tenho verdadeiro pavor de não fazer nada. Por quê? Porque estar a toa me faz sentir inútil, sem serventia, e quando eu me sinto assim, a minha vida não faz o menor sentido. Eu preciso estar constantemente ativa, trabalhando, servindo, provendo, gerenciando, calculando, limpando, produzindo, e por aí vai.

Cuido da casa, das roupas, das crianças. Pago as contas, faço o supermercado, o almoço. Trabalho na rua, visito clientes, fecho negócios. Escrevo propostas tarde da noite, respondo e-mails de madrugada, escrevo nas horas vagas. E sabe o que é estranho? Isso me faz bem, porque me sinto importante, porque me atribui valor. Eu vou falar uma coisa para vocês. Eu não consigo me deitar e assistir um filme sem que o celular esteja por perto, porque alguém pode precisar de mim, alguma urgência pode aparecer, e a minha cabeça certamente vai se lembrar de mais um item que preciso fazer, mais um problema para eu resolver com urgência.

A minha mente funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Acordo no meio da noite para escrever algo que me lembrei e que não posso me esquecer.

Vejo as pessoas comemorando a chegada das férias, ansiosas, fazendo planos de não fazer nada. Eu simplesmente não consigo! Férias é um pesadelo para mim. Na verdade, é a época que eu mais trabalho. Me inscrevo em cursos de tudo que eu vejo pela frente, procuro especializações à distância, invento programações diárias intensas, que inclui corrida no parque, passando pela festa de aniversário infantil, fechando com um jantar para 12 pessoas. Termino o dia exausta. Me sinto como o peru desossado e cortado em pedaços para servir aquela dúzia de famintos.

Eu já tentei, claro que sim, e continuo tentando desacelerar. Procurei entender as técnicas de respiração. Já fiz yoga, shantala, aulas de alongamento e meditação. Pesquisei sobre aromaterapia, a harmonização das cores, os chakras, a energia das pedras. Tomei florais, busquei a natureza, o canto dos pássaros, o nascer do sol, o pôr do sol, a lua cheia, as noites estreladas. Mas nada, nada mesmo, me desconecta do mundo, da pressa e de tudo que só eu consigo resolver.

Tem pessoas com fobia de insetos, de gente, de altura, do escuro, de lugares fechados. Eu tenho fobia do ócio, de não fazer nada, de sentir o tempo passando e não estar fazendo nada com ele. Acordo com uma ampulheta imaginária ao meu lado, contando os meus segundos de vida. Pior que isso. É como se eu tivesse que prestar conta à um fiscal sobre tudo que eu fiz. Mais tenebroso ainda. É como se eu tivesse que dar satisfação das coisas que deixei de fazer, aprender, viver.

Sou taxada de ansiosa, impaciente, imediatista. Estou sempre ligada no 220. Pessoas de baixa frequência potencializam a minha voltagem e me aceleram ainda mais. Tenho medo de não acompanhar a tecnologia, sofro com a hipótese de não atingir a demanda do mercado, de engessar os meus conhecimentos, de não ser uma mãe presente, de não ser um bom exemplo. Isso tudo me dá a sensação de que se eu sair do ‘on’ para o ‘pause’ — eu nem digo ‘off’! — serei engolida pelo mundo.

É por isso que estou aqui. Para dizer que a minha ociofobia nada mais é do que o medo de não ser boa o bastante, de não ser uma boa mãe, uma filha disponível, uma amiga presente. Minha ociofobia é pura insegurança profissional, essa mania de achar que sempre tem alguém melhor e que nada que eu faça é surpreendente. Minha ociofobia é fundamentada na ideia de fazer o pé de meia hoje para desfrutar da vida amanhã, mesmo sabendo que o amanhã pode ser completamente diferente ou que ele pode não chegar.

Só por hoje eu vou conseguir esquecer das urgências, não resolver nenhum problema, não trabalhar nem arrumar nada. Vou desligar a internet, ouvir música, ler um livro, ver um filme no sofá agarrada com as crianças. Vamos fazer pipoca e brigadeiros, sair para dar uma volta sem rumo, debaixo de chuva e gargalhadas. Vou visitar a minha mãe sem hora marcada, ligar para uma amiga sem pressa, comer devagar, apreciar o céu nublado, o cheiro da chuva, tomar um banho demorado.

Só por hoje. Eu conto com vocês.

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