Meu amor não obedece legislação

Lis ama Ana. Ela sorri quando se lembra da primeira vez que viu aquela menina com olhos azuis gigantes – naquele momento ela soube. Olharam-se e viram a alma uma da outra, nada fazia nenhum sentido, pelo contrário, tudo fazia sentir.

O primeiro beijo aconteceu entre risadas incontroláveis e o calor ameno do pôr-do-sol, depois vieram os sufocantes de saudades após a semana interminável. Não demorou para que chegasse o momento dos beijos preguiçosos debaixo das cobertas de domingo, não demorou para que não precisassem voltar pra suas casas na segunda.

Lis ama Ana, Ana ama Lis e é simples assim. Mas, no Brasil, elas não podem existir. Perante a lei, seu amor não é digno para constituir uma família.

Maria levou alguns meses para ter certeza que amava Ricardo. No começo achava que era só coisa de pele, o beijo que encaixava, o corpo que não queria desencaixar. Com o tempo, foi percebendo que gostava de dividir não apenas sua libido, mas também goles de café e cafuné no fim de tarde. Foi André, seu outro namorado, que abriu os olhos de Maria, falando para ela parar de resistir. Nesse momento Maria viu o quanto amava André com plenitude, o beijou, e resolveu seguir seu coração.

Maria vai muito bem, obrigada, com seus dois amores. Mas, no Brasil, Maria não tem o direito de se apaixonar por duas pessoas. Ela é obrigada a escolher somente um para ser feliz para sempre – não sem registrar em duas vias no cartório, é claro. No Brasil, Maria nada mais é que uma vadia que não sabe o que quer.

Jorge trabalha em dois projetos sociais – é voluntário em um hospital infantil e auxilia em um abrigo de animais. Religioso, Jorge lembra-se de agradecer todas as noites pela aprendizagem cotidiana. Jorge paga seus impostos em dia. Jorge não ultrapassa o sinal vermelho. Jorge, esse menino de sorriso cativante, é do tipo que te abraça de verdade.

Pelo menos é o que diz Thiago, com quem convive há mais de dez anos. Mas, no Brasil, eles evitam se abraçar na rua. Tem algo a ver com a tal família tradicional e seus bons costumes, que pelo jeito não inclui abraçar quem você ama, se essa pessoa for seu namorado que por acaso tem o mesmo órgão genital que você. Pelo jeito, isso automaticamente te faz um cidadão pecador e indigno de confiança.

Clamamos por amor e dizemos que somos livres. Mas, ao que parece, querem fazer lei para enquadrar até mesmo a nossa forma de amar. Amor não cabe em legislação – é totalmente pessoal e inclassificável. Hétero, gay, bi, monogâmico ou poligâmico: Não existe amor certo ou amor errado. O que funciona para você não funciona para o outro, mas se cada qual está feliz com o seu tipo de amar, qual é o real problema?

Tantas perguntas sobre o amor, quando na verdade ele é a própria resposta. E nessa terra de liberdade placebo, nós, do time do afeto, seguimos rebeldes. E seguiremos quantas cláusulas mais surgirem, até que um dia, quem sabe, essas histórias e tantas outras possam ser celebradas sem medo e sem dor. Porque amor, meus caros, não dói – o que dói é a estupidez humana.

TEXTO DECristina Souza
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