Mas você não fez nada?!

É sempre assim: você sofre uma agressão, está fragilizada, conta para desabafar e em menos de 5 segundos aparece alguém para perguntar “Mas você não fez nada?” “Deixou por isso mesmo?” “Por que não denunciou?”

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É foda.

Tem uma série de razões pelas quais esses questionamentos são mais do que um saco, são violentos. Primeiro porque coloca-se na vítima uma obrigação que não é dela. Falando em violências contra a mulher, o feminismo luta para que haja empoderamento, emancipação e, consequentemente, autonomia para denunciar. Mas isso leva tempo e funciona de forma diferente para cada pessoa. Há mulheres que ainda não conseguem reagir, há mulheres que talvez nunca conseguirão. Tudo o que elas não precisam ao serem agredidas é ouvir que agiram de forma errada, que podiam ter feito melhor.

Não, não podiam.

E não poder não significa permanente incapacidade de reação. Quer dizer apenas que, ao sofrer determinada agressão, você não pôde confrontar seu agressor no momento. A vida não opera numa lógica ideal, dentro da qual sempre teríamos ânimo, força e disposição para enfrentar qualquer obstáculo. Às vezes não dá, e tá tudo bem também.

É curioso como apenas violência contra a mulher gere esse tipo de atitude por parte dos ouvintes. Nunca vi alguém contando sobre ter sido assaltado e receber como resposta algo tipo “Mas você não gritou com o ladrão? Não arrumou um barraco? Se fosse comigo ele ia ver!”. Ainda que uma forma mais sutil, essas perguntas ainda são reflexo da cultura de culpabilizar a vítima – mulher, é claro.

Tem outra coisa aí. Ao reagirem à bulinada no ônibus, à cantada de rua, à passada de mão na bunda, as mulheres correm risco real de sofrerem ainda mais. Não tá pouco de cara bate em mina porque ela denunciou uma agressão. Não tá pouco de cara que mata a mulher porque ela foi à delegacia e não foi devidamente amparada ao sair de lá.

Eu, que quase sempre xingo os homens que mexem comigo, já fui parar na delegacia porque dois caras começaram a me seguir e ameaçar depois de ouvirem um “homenzinho de merda”. Também já não respondi porque eram vários homens, porque estava numa rua deserta e escura, porque estava com pressa, por qualquer coisa. Não importa o motivo, ele não deve ser questionado.

Que fique explícito: isso não é um desencentivo à denúncia de qualquer violência. É, sim, um apontamento para que sejamos mais solidárias e empáticas com as vítimas. Quando alguém contar sobre uma agressão sofrida, apoie, ofereça ajuda no que precisar. É bem mais provável que a pessoa fique fortalecida para denunciar com gente ao lado do que sozinha e se sentindo errada.

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