Livre, respeitada e do bar

Pelo direito de ser E DE NÃO SER bela, recatada e do lar.

 

Quando a gente acha que já teve náuseas suficientes nos últimos dias, surge uma reportagem sobre a esposa do Michel Temer, intitulada “bela, recatada e do lar”. Antes de tudo, que fique claro, não vejo nenhum problema se uma mulher quiser ser bela, recatada e do lar. Como disse Simone de Beauvoir, “que a liberdade seja a nossa própria substância”. Toda mulher é livre para escolher o caminho que torna-a realizada. Isso só se torna um problema quando um dos maiores veículos de informação do país coloca- ainda que de forma velada- essas características como padrão a ser seguido, e coroam a reportagem dizendo que Temer é um homem de sorte.

Precisamos olhar para isso. Pensar sobre isso. Precisamos repensar esse encardido conceito de “bela”. A boa e velha mulher objeto que tem seu valor diretamente relacionado ao quão agradável ela é aos olhos alheios. O fato de que a primeira análise de uma mulher sempre será a respeito da sua aparência (mesmo quando ela está apresentando um projeto no trabalho ou esperando o ônibus no ponto) é algo que o feminismo tenta extirpar há décadas. Mas o mundo não está interessado em mostrar que a beleza da mulher está muito além da estética.

Mulher bonita é a mulher que luta, meus queridos.

Na sequência temos a mulher “recatada”. Essa é a tal mulher que “se dá o respeito” aos olhos machistas e conservadores.  São esses mesmos olhos que acham que a mulher que saiu de saia curta contribuiu para o próprio estupro. Recatada é a mulher que sabe ficar em silêncio em uma discussão “de homem”. A mulher que “se recolhe à própria insignificância”. A mulher que se recolhe.

Não. Nós não vamos nos recolher. E isso é só o começo.

E a cereja do bolo: “do lar”. Quando a expressão “do lar” significa trabalhar cuidando da casa, ela é uma característica fantástica e honradíssima, para homens ou para mulheres.  Cuidar da casa é exaustivo, necessário e relevante. Mas quando “do lar” vem depois de “recatada”, sabemos que não se trata de zelar da casa. Trata-se de “não se expor”, de “ser uma boa esposa”, de “ocupar seu lugar de mulher”.

Lugar de mulher. Lugar de mulher é onde ela quiser, amigo.

É no bar, tomando whisky. É em casa, lendo jornal e comendo amendoim. É em plataforma de petróleo. É na sala de aula, assistindo e lecionando. É em pista de skate. É na câmara dos deputados.  É dirigindo táxi. É na rua, à noite, sozinha. É no mundo.

“Bela, recatada e do lar” não é só uma reunião de características um tanto quanto antiquadas. É uma ideologia. É a mulher da qual o Temer gosta. E da qual o machismo gosta. Não se enganem amigas, o que estamos assistindo no Brasil não é apenas uma disputa pelo poder. O que nós estamos vendo é, além de tudo, uma tentativa de mudança ideológica em muitos campos. Mudança essa que coloca a mulher, a família, os trabalhadores, os gays, os negros e tantos outros no lugar que eles julgam adequado. Isso se chama retrocesso e isso dá medo. Mas, sabem como é, o medo nunca nos impediu de lutar.

Michel Temer é um homem de sorte? Pode ser que seja. Assim como o marido (ou mulher) de uma engenheira. De uma militante feminista. De uma faxineira. De uma stripper. De uma professora de biologia. Mas a existência de uma mulher não serve para ser mero acessório da felicidade de um cônjuge. A nossa existência serve para fazer sentido por si só. Para não se encaixar em modelos ultrapassados. Para tomarmos nossos porres, lermos nossos livros, fazermos nossas viagens, escolhermos nossos caminhos. Para sermos livres e respeitadas, seja no lar ou seja no bar. Nós somos muito mais do que eles querem que a gente seja. E é bom que eles estejam prontos para isso.

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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