Há dias assim

Lá fora o dia amanheceu cinzento. E cá dentro, cinzenta é como me sinto. Como se houvesse uma grande tempestade dentro de mim, chuva e trovões que me apavoram.

Oiço o barulho ensurdecedor dos comboios, talvez seja o som do grito da minha alma. Aqui dentro estou eu, enrolada nos cobertores sem qualquer motivação para me levantar. A felicidade acordou mais cedo e deixou-me aqui sozinha. Sozinha e melancólica, assim fui abandonada.

Mais um comboio passou, mais uma hora se perdeu. E eu continuo estática, com o olhar fixado numa parede branca e as batidas cardíacas sincronizadas com o tic-tac do relógio.

Sou invadida por um tornado de pensamentos. Memórias obscuras que me atormentam e aterrorizam, sonhos roubados, esperanças goradas. Uma vida de fracassos, pela qual me deixo vaguear.

Algo em mim está cansado disto. A monotonia de uma cidade cheia de pessoas apressadas e vazias por dentro. O enfadante trânsito depois do trabalho, as buzinadelas, os condutores agressivos que vão soltando alguns palavrões. A noite corrompida pelas luzes dos prédios, que não deixam sobressair os brilhos mais bonitos do céu. Um mundo todo igual onde as pessoas vivem de aparências, onde metem uma máscara na cara e seguem, todos os dias, o mesmo caminho.

Também eu faço parte desse mundo, também eu tenho de seguir a rotina dia após dia. Mas, hoje cansei me disso! Hoje vou ser só eu e o silêncio que me rodeia, enquanto a vida lá fora decorre.

Cansei! Hoje não quero fazer parte de um dia comum, um dia que começa e acaba sempre da mesma maneira.

Há dias assim… Dias em que a nossa alma grita, chora e implora por sossego.






COMENTÁRIOS