Fui mexer na minha bolsa

Fui mexer na minha bolsa para ver se encontrava uma balinha qualquer para enganar a fome. Acabei encontrando uma presilha de cabelo que jurava que tinha perdido há 7 meses. Delícia. Continuei mexendo, encontrei uma caneta feia de propaganda que ficou aberta e riscou o forro da bolsa. Merda. Acabei esquecendo a bala.

Fui mexer na minha bolsa para ver a hora no celular. Encontrei um papel dobrado em quatro, com uma lista velha de supermercado: alho poró, detergente, queijo ralado, melancia, limpa vidros. Acho que nunca comprei limpa vidros. Será que fui eu mesma que fiz essa lista? Que tristeza de lista, eu hein. Nem um cremezinho de leite.

Fui mexer na minha bolsa para pegar o cartão de crédito. Dei de cara com um panfleto de amarração do amor 100% garantida, pagamento após resultados. E encontrei um elástico de cabelo também (nunca vi aquele elástico, de quem será esse elástico?). Melhor amarrar que ele tá meio rebelde. O cabelo. O amor também é rebelde, mas melhor não amarrar não.

Fui mexer na minha bolsa para ver se achava umas moedinhas. Encontrei um cupom fiscal de umas roupas que comprei numa promoção e que até esqueci que estavam no guarda roupa. Será que aquela calça tá cabendo?  Não tinha meu número, mas eu jurava que ia perder 3 kg até o fim do mês. Credo, melhor nem tentar.

Fui mexer na minha bolsa para ver se tinha um comprimidinho para dor de cabeça. Achei uma cartela de remédio. Cloridrato de ciprofloxacino. Que raio será isso? Será que tomei quando a garganta inflamou? Ou foi quando dei mau jeito no ombro? Sei lá. Se não ajudar a passar a dor de cabeça, ajuda alguma outra dor da vida. Ou não.

Fui mexer na minha bolsa para procurar um batonzinho. O tempo tá seco, o lábio rachado. Encontrei um creme de mão que ganhei  no meu aniversário de 2013. Deve estar bom ainda. Será possível que não tem um mísero batom nessa bolsa? Talvez dê pra passar o creme de mão na boca. Não, achei um batom! Achei dois. Três. Nossa, um gloss também. Gente, pra que tanto batom?

Fui mexer na minha bolsa, o celular tava tocando. Enquanto cavocava freneticamente vi uma barra de cereal sabor maçã com canela, uma régua de 15 cm, um brinquedo de kinder ovo, um cartão de visitas de um corretor de imóveis, um bloco de post-it. Não achei o celular. Não achei porque ele estava no bolso da calça.

Fui mexer na minha bolsa para ver se tinha uma garrafinha com água. Tinha. A água estava boa. Boa para fazer chá. Intragável. Vi lá no fundo um livrinho. Gente! Esse livrinho. Nunca li. Coloquei na bolsa, mas sempre acabo me rendendo às revistas Caras do dentista. Tenho que ler o livrinho.

Fui mexer na minha bolsa para pegar minha chave. Tinha duas entradas de cinema. Tentei lembrar do filme, lembrei, era melhor nem lembrar, tão ruim que era. A companhia era boa. Continua sendo. Fiquei lembrando de coisas boas. E nada da chave. Só achei quando a vontade de fazer xixi apertou.

Fui mexer na minha bolsa. Era para ser só uma bolsa, não uma máquina do tempo. Era para caber só carteira, chaveiro, escova, coisinhas. Não era para caber tanta bagunça, tanta lembrança, tanta história. Mas cabe.

Fui mexer na minha bolsa para procurar o ticket do estacionamento. Encontrei contas atrasadas, pessoas esquecidas, docinhos desejados, compromissos adiados, alguma culpa, alguma graça, bastante pressa. E o ticket do estacionamento… O ticket do estacionamento nada.

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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