Felicidade em pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço

Escrito por: Rebeca Bedone

Publicado originalmente pela Revista Bula

 

Dirigindo no trânsito caótico do fim do dia, vemos o carro da frente jogar uma lata de refrigerante pela janela. Logo pensamos nos bueiros entupidos de papéis, plásticos e imundície humana, que alagam as ruas de nossa cidade em dias de chuva. Chegamos em casa e ligamos a televisão que noticia a briga de adolescentes em frente ao colégio, com puxão de cabelo aqui e pontapé dali. Ao redor, outros adolescentes filmam tudo com os seus celulares, mas ninguém separa os raivosos seres de 12 anos.

É que a vida não está fácil para ninguém, não é? O mundo girando rápido demais e a vida parecendo perder o seu sentido. Ainda, contas para pagar, compromissos a cumprir e a pessoa que não tira os olhos do smartphone enquanto conversa com você.

E nas salas de aula, então? Se antes os alunos conversavam, hoje eles navegam na internet. O professor tem que se virar para chamar mais atenção que as fotos que são postadas no Facebook, além de precisar tomar cuidado nos lugares onde virou moda mestre ser chamado de “vagabundo” e ser linchado na saída da escola.

A falta de educação não para por aí. Infelizmente, estamos habituados à grosseria de gente que cospe na cara do outro diante uma discussão acalorada, ou daqueles que se xingam nas redes sociais. E isso acontece só porque pessoas pensam de forma diferente.

Mas, chega uma hora, naquele dia em que ficamos 20 minutos procurando uma vaga no estacionamento lotado do shopping, que vem a indignação. Quase sempre tem um jovem saudável estacionando na vaga de deficiente físico ou idoso. Será que quem faz isso não consegue ver que há placas sinalizando que as vagas estão reservadas?

Para viver em harmonia é essencial saber ver. Porém, há pessoas cegas — e egoístas — demais para enxergar o mundo ao redor.

Aprender a ver, segundo Nietzsche, é “acostumar os olhos à quietude, à paciência, a aguardar atentamente as coisas; protelar os juízos, aprender a circundar e envolver o caso singular por todos os lados”. Com um olhar mais afetivo, encontramos o sentido nas coisas e a razão de ser. Não acredito que estamos aqui para nos afastarmos uns dos outros.

Ver as coisas através delas pode parecer difícil, mas basta querer. E, quando aprendemos a enxergar o que antes não era visto, o mundo se expande. Conectados uns ao outros através de nossos sentidos, encontramos felicidade. Já dizia Cora Coralina, “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Espero haver tempo de nos matricularmos novamente na escola da vida. Porém, não adianta somente vermos e sentirmos o mundo. É preciso sonhar e acreditar que aqui é um lugar bom de viver. Respeitar, amar e perdoar são lições para todos os dias, e que precisamos aprender uns com os outros.

“Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender” (Alberto Caeiro).

COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS