Eu vivo por aqueles que não conseguem

O nó no meu estômago aperta, e a dor fica mais e mais intensa.

Mal consigo respirar.

Este é um sentimento com que vivo praticamente todos os dias da minha vida. Não existe razão para isso, mas vem como uma suave onda, batendo contra mim levemente até que se começa a parecer como que todo o oceano me embrulhasse pelo interior.

Este é o sentimento que tenho quando me lembro da pressão. “Que pressão?”, tu perguntas.

É a pressão de vem por ter perdido inúmeros amigos, familiares e uma legião de muitas outras pessoas neste planeta para a mesma doença com que tive a sorte de me curar à 10 anos atrás: cancro.

Parece realmente melodramático. Aconteceu comigo à muito tempo atrás, e eu era apenas uma criança.

Ainda assim, essas são as mesmas razões porque a sua presença é forte e dura; está gravado em mim. Não conheço nenhuma outra maneira de viver.

A cada passo que dou, sou constantemente lembrada do facto que muitas pessoas, todas muito similares a mim e com o mesmo tipo de cancro que tive, não estão aqui hoje.

Eu lembro-me de parar e respirar. “Não entres em pânico!”, tento dizer isso a mim própria. Eu estou aqui por uma razão.

É aceitável que eu me pareça com uma troll desgrenhada e tenha feito mais erros hoje no trabalho do que aquilo que consigo contar. Mereço estar aqui, certo?

Não tenho a certeza, mas não importa porque estou.

Não me interpretem mal; eu adoro a pessoa que me tornei. No entanto, apesar da minha auto-confiança, a seguinte questão surge: “Poderia alguém ter feito mais do que eu?”.

Com cada desapontamento e momento de auto-avaliação, sou lembrada que não vivo para mim ou para a pessoa que um dia posso ser.

Não, eu vivo por algo muito superior e grandioso.

A minha presença neste planeta ecoa com as vidas dos meus amigos e dos milhões de outros que não estão aqui para viver os seus sonhos.

A pressão para viver por aqueles que não estão aqui é realmente um sentimento indescritível.

 

Estou constantemente a pensar sobre todas as outras crianças que conheci no hospital e em como elas pareciam conseguir fazer tudo de forma mais sucedida do que eu alguma vez consegui.

Muitas eram alunas de “Excelente” durante todo o seu tratamento ao cancro, e eu mal conseguia um simpático “Satisfaz”, que por vezes parecia literalmente um “Fraco” enrolado num taça de boa vontade.

Nenhum professor queria ser aquele que chumbava a menina a morrer. Isso teria sido definitivamente mau karma. Mas aqueles “Satisfaz” tinham que chegar.

Eu só consigo imaginar aquilo que muitas das outras incríveis crianças teriam conseguido fazer com as suas vidas se eles estivessem aqui hoje.

Com aproximadamente 15.780 crianças diagnosticadas com cancro todos os anos, eu sei que não estou sozinha na minha ambiguidade.

Não tenho nenhuma ideia porque é que sou eu que estou aqui hoje.

Sem ser o facto que, falando cientificamente, a quimioterapia funcionou melhor nas minhas células cancerígenas do que nas outras crianças, ainda estou perplexa com a minha contínua existência.

Eu não sou uma pessoa religiosa, mas acredito que existe um outro grande propósito e significado na vida que nenhum humano poderia viabilizar compreender.

Isto é porque escolho acreditar que existe uma razão, um propósito e uma necessidade que eu esteja aqui hoje. Sem essa perspectiva, a minha mentalidade seria realmente sombria.

Eu sou a primeira a admitir que não estou nem perto da verdadeira imagem de perfeição humana. Sou uma caótica criatura.

Mesmo assim, sem qualquer sombra de dúvida, eu tento honrar as vidas daqueles que já não estão aqui.

Então, para todas aquelas crianças que estavam comigo no hospital e que tive o privilégio de conhecer, por favor saibam que a vossa bonita e efervescente alma nunca será esquecida.

Todas as minhas realizações são as vossas realizações; todo o meu sucesso é o vosso sucesso.

Eu posso por vezes estar perdida, mas eu vou, com 100% de certeza, fazer algo da minha vida — da nossa vida. Vocês não serão esquecidos.

TEXTO DEMartha Rocha
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