Eu queria que a nossa história virasse um filme

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Sim, eu queria. Sabe essas grandes histórias do cinema que através do trailer descobrimos que se trata de algo incrível?
Nesse enredo estaríamos aos sábados tomando nosso vinho preferido, aquele barato que você dizia que não poderia grudar na parede da taça. Aquele, que quando eu abria você corria para pegar o primeiro gole ainda na garrafa.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. E que nesse elenco estrelado representássemos o melhor do que havia em nós: meu sorriso encaixado no teu, seus olhos perdidos nos meus, seu cheiro misturado com o meu e com as rosas que eu costumava te dar.

Eu queria que nossa história virasse um filme e que a trilha sonora fosse feita somente com nossas músicas. Na faixa dois do CD tocaria Your Song, do Elton John, que eu gostava de ouvir no desafino da sua voz doce. Na faixa sete, eu cantaria acapella os versos que você me pedia para cantar na igreja se um dia nos casássemos.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. A iluminação seria feita pela luz dos nossos sonhos, aqueles que criamos acordados. Do apartamento com sacada que teríamos, aos dois cachorros que adotaríamos. Sem filhos, ainda que dissesse em voz baixa que adoraria ter uma menina que se parecesse com você.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Todos os cortes seriam nas brigas que a gente não queria ter, nas vezes em que você me chamou de estúpido e eu te chamava de idiota. Em todas as vezes em que perdíamos a paciência um com o outro e, depois de muito gritar, iriamos parar na cama. Deixaríamos somente a cama na cena.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Sobre como fizemos aquela viagem à Nova York que você queria tanto e sobre quantas cervejas tomamos juntos no jogo dos Yankees. Eu não entendia nada de baseball, mas entendia muito do nosso amor. Você sequer quis saber das rebatidas, somente dos nossos olhares que se rebatiam entre um intervalo e outro.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. No roteiro, as falas da minha conquista quando te chamei para tomar um drink naquela balada e o tempo parou para nós. No roteiro, você dizendo sim. Sim para o jantar que queimei na sua casa, sim para o show que fomos daquele cara que não sabíamos o nome, sim para o motel barato no meio da estrada que encontramos e que ali ficamos por horas sem olhar o relógio.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Sobre como nós nos perdemos. Sobre como entre nós ficamos, amarrados entre o que era confuso e o que era errado. Sobre como nós ficam apertados quando duas cordas querem muito ficar juntas e como tudo que é apertado demais sufoca, não respira, não inspira.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Sobre como aquilo que nos unia desapareceu. Sobre como o riso solto se transformou em angústia daquele jeito inesperado. Sobre como ir ao cinema ficou chato, sobre como o restaurante favorito fechou as portas do nosso ânimo. Sobre como queimar o jantar virou um problema e tomar o primeiro gole de vinho na garrafa se transformou em falta de educação.

Eu queria que a nossa história virasse um filme, desses que se afrouxam à medida que as pontas não se procuram mais, no passo em que querem ficar longe uma da outra. Desses que desamarram, desamaram e deixam de ser.

Eu queria que a nossa história virasse um filme. Poderia se chamar “Aquilo que se Foi” ou simplesmente “Nós”. Não importa: perderíamos a estreia e o tapete vermelho. Ficaria apenas a lembrança de um dvd guardado na estante entre tantos outros que existem por aí.

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEDenis
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