Se você também não entra, vem, me dê a mão, a gente agora não precisa mais ter medo!

Não existe vida sem uma calça jeans. A Gisele tem, a Preta tem, você tem e a tia da cantina também tem.

Numa reportagem sobre moda, escrita para um grande e popular jornal nos anos noventa, o autor citava algumas modelos de sucesso colocando como característica básica usar calça menor do que o número trinta e oito.

Naquele dia eu constatei que nunca na vida eu tinha usado uma calça dessa numeração. Devo ter pulado das numerações infantis para o bom e velho quarenta e dois – e nele eu estou até hoje. Talvez minha mãe tenha comprado alguma numeração menor quando eu tinha dez anos, não passava de uma barrigudinha típica e minhas roupas eram compradas sem que eu me preocupasse com esses detalhes. Desde que os hormônios me deram de presente a vaidade, eu compro calças jeans cuja numeração começa com quatro.

Ao longo desses anos, a calça trinta e oito se tornou um troféu a ser exibido pelas mulheres que comemoram o sucesso de uma dieta ou demais procedimentos que as façam caber naquele pedaço de jeans. Fotos acompanhadas de legendas lotam as vitrines virtuais e são curtidas, comentadas e invejadas. Juro que já vi mulheres sapatearem a numeração da calça na “cara das inimigas”. Mulheres podem ser muito malvadas, e uma calça trinta e oito pode virar uma arma em “mãos erradas”. Uma arma dez vezes mais poderosa que o P que discrimina o tamanho das roupas, talvez porque números sejam mesmo cabalísticos.

E quem nunca coube, nem nunca vai caber numa calça trinta e oito: faz o que? Se mata? Vou ter que encabeçar a fila, que, cá entre nós, vai ser longa e talvez haja nela gente bem bacana, de bunda e coração grande. Será que o que chamam de mulher gostosa cabe no trinta e oito?

Se você também não tem planos de caber numa calça alguns números menores do que a que você usa, podemos fazer o seguinte: Que tal uma campanha em prol da alteração numérica das roupas, de modo que as calças sejam catalogadas por letras ou símbolos celtas? Ou então criar uma seita na qual seja proibido usar calças? Pode-se ainda contratar alfaiates que façam calças sob medida para cada um de nós e então toda numeração seria extinta.

Algumas mulheres – me incluo nessa lista – jamais entrarão numa calça trinta e oito, nem se desenvolvessem anorexia nervosa, assim como seus pés não caberiam em sapatos trinta e quatro, todavia, observem: nunca houve nenhum status sobre a numeração dos sapatos! Não se deseja ter pés menores na mesma proporção que se almeja caber em roupas pequenas. As modelos, por serem altas têm pés enormes – e isso passa batido. Eu acredito que muita gente adoraria exibir pés que cabem nos sapatos trinta e sete, porém tanto faz ter pés grandes ou pequenos. Os pés são respeitados! E antes que digam que pés não engordam ou emagrecem – eu vos digo que engordam sim.

Muitas de nós lamentam por não terem nascido em outros tempos, quando poderiam, por exemplo, ser consideradas modelos de beleza para pintores como Renoir. Padrões de beleza mudam, e parecem emagrecer enquanto a população engorda. Se para entrar na calça tivermos que nascer de novo, eu espero que seja numa realidade estilo Aldoux Huxley na qual eu receba a minha roupa e o meu soma, assim fica menos chato. Agora cá estamos nós, garimpando a Zara toda para encontrar algo que nos caiba nas ancas. Enquanto isso, o mundo cria novos tratamentos estéticos, séries de exercícios, procedimentos cirúrgicos e novos editores de imagem que nos padronize e nos façam e entrar na calça, nem que seja só na ilusão.

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