Eu não sei fingir

”Ah, então quer dizer que você é cem por cento transparente o tempo inteiro? Conta outra, menina”. Não, não sou, mas tento ser. Sabe por que? Porque fingir que gostei de algo, que sou o que não sou, que quero alguma coisa, que não me importo e que não tenho medo de perder alguém especial é o primeiro e o último passo pro meu fracasso pessoal. ”Ah vá, é mesmo?”.

Não sei fingir que gostei do que você fez comigo na cama. Você acha que sexo se resume a ”molhar o biscoito”? Beijos de língua rápidos e mal dados, uma passada de mão aqui, outra lá, e uma cuspida lá na minha região íntima? Ah, faça-me o favor. Não consigo fazer cara de satisfeita, sexo é muito mais que isso: é troca, saliva, suor, olhos nos olhos, gemidos incontroláveis devido a abundância de vontade de ambas as partes. É ficar feliz em saber que o outro goza com você. Sexo é indiscrição, luxúria, loucura. Não deve ter pudores, nojos e julgamentos. Preocupações com o trabalho, com as contas, com a casa bagunçada e com a família não devem ser levadas para o quarto (ou onde quer que nós estivermos).

Eu demonstrei a minha decepção com você entre quatro paredes. Não foi por falta de te ensinar como eu gosto de ser acariciada ou por não dizer em quais regiões do corpo sou mais suscetível a ter uma descarga de arrepios. Não foi por falta de me higienizar direitinho. Não concordo com o fato de você querer que eu faça aquilo que você se nega a fazer: sexo oral. Por isso eu não pensei duas vezes em te deixar na mão, literalmente. Cara, você não é obrigado a fazer nada e eu não sou obrigada a ficar com alguém que só pensa no próprio prazer. Bye bye!

Eu não sei fingir que gostei de alguém que acabei de conhecer. Posso estar errada em julgar pela aparência e por ter trocado poucas palavras com a pessoa. Mas sabe quando o santo não bate? Então.  Aí não tem chocolate que disfarce a minha cara azeda. Não sei fingir que gostei da forma como me trataram em algum lugar. Por exemplo: chego com uma amiga na casa da amiga dela que não conheço, aí elas começam a comentar da vida de fulanos que apenas elas conhecem e não falam sobre algum assunto no qual eu possa me incluir. Porra, que situação, hein? Não me resta nada senão ficar mexendo no celular. Que tédio!

Não sei fingir que não estou apaixonada quando meus olhos, meus trejeitos e meu jeito bobo de falar contigo te entregam todo meu sentimento. Pode rir, me chamar de idiota e dizer que sou toda atrapalhada. Sou mesmo. Também não sei disfarçar um tropeção na calçada. Me desequilibro e rio de mim mesma. Ninguém consegue manter os pés no chão o tempo inteiro. Eu flutuo, assumo.

Eu poderia me esforçar a acreditar no que não acredito, a gostar do que não gosto e a aceitar o que não aceito num cenário cinematográfico, num estúdio de novela da globo ou num palco de teatro. No entanto eu não falo e  não ajo de forma mecanizada conforme pede um script. Apenas os meus olhos são dissimulados (e serão até o dia em que eu fechá-los eternamente). Confesso que já quebrei a cara por fingir muitas coisas, mas hoje não finjo mais, obrigada.
Escrito por Flávia Jaine, colunista do Sábias Palavras.

Escritores4-01

FONTESábias Palavras
TEXTO DEFlávia Jaine
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