Eu não quero entender os homens

É, amigas: eu não quero. Eu nunca quis. Sei que pode soar irônico, hipócrita e até meio blasé mas essa é uma convicção que até eu mesma demorei um pouco para acolher. Demorei por ignorância. Por não conseguir compreender que eu deveria preferir dedicar tempo, energia e atenção à inesgotável tentativa de me entender, conhecer e reconhecer.

Eu nasci em 1990. Sei que não faz muito tempo mas confesso que me sinto uma anciã quando paro para pensar no quanto as coisas eram diferentes.O Orkut, a primeira rede social popular no Brasil, surgiu quando eu já tinha 14 anos de idade e algumas dúzias de opiniões formadas. Ainda assim, o acesso à diversidade de informação era vergonhosamente inferior ao que os blogs, sites e redes sociais atuais são capazes de proporcionar. Hoje, confesso que assisto com certa inveja às pré-adolescentes que desenvolvem suas convicções primárias num momento em que o acesso à informação é tão mais simples e diversificado.

Fato é que nos anos 90 seria impossível observar uma reação como a que ocorreu na semana passada à matéria da Revista Atrevida que sugeria que as meninas se maquiassem da maneira como os meninos gostam:

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Nos anos 90, além de não haver meios efetivos de reação em massa a esse tipo de matéria, o acesso à informação era limitado e isso fazia com que as adolescentes e pré-adolescentes dificilmente desenvolvessem opiniões contrárias àquelas que eram lidas nas revistas.

Eu cresci lendo nas revistas que deveria me maquiar da maneira como os meninos gostam. Que deveria me comportar da maneira como os meninos gostam. Que deveria me vestir da maneira como os meninos gostam. Que deveria fazer os joguinhos românticos que os meninos gostam. Que deveria dedicar todas as minhas energias, neurônios e calorias a fazer o que os meninos gostam.

Virei adulta e as revistas me ensinaram a fazer dieta para ter o corpo que os meninos gostam. Ensinaram que quando estivesse com os meninos, deveria esquecer a dieta porque de mulher chata eles não gostam. Aprendi que deveria ser uma puta na cama porque é disso que os meninos gostam mas que o importante mesmo era fazer sexo preocupando-me com a maneira como os meninos gozam.

Hoje eu sei que não. Mas sei a duras penas. Sei porque fiz um esforço enorme para descontruir a ideia de que devo dedicar minha vida à vã tentativa de tentar agradar outra pessoa. Hoje eu sei que sou um ser complexo demais e que as tentativas de compreender todas as minhas nuances, buscar meu equilíbrio e satisfazer minhas próprias expectativas já são suficientes para eu ter ocupação na Terra por bastante tempo.

Hoje eu sei que a ideia de agradar o gênero masculino, além de diminuir as mulheres, diminui os homens, já que parte do princípio ingênuo, medíocre e reducionista de que os homens são todos iguais. Hoje eu sei que se um cara bacana cruzar o meu caminho e quiser me acompanhar para que juntos possamos nos compreender e agradar pessoal e mutuamente, vai ser ótimo, mas que nem por um instante eu devo me atrever a pautar minhas escolhas e comportamentos na ideia infantil de agradar alguém que não seja eu.

Fonte: Eduarda Costa

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