Estou ótima, obrigada

O silêncio era grande como nunca havia presenciado antes, mas os barulhos da mente pareciam ecoar nos cômodos vazios. O apartamento já estava quase desocupado. Eu havia tirado todos os móveis, só faltava me livrar de algumas lembranças. Sobraram apenas as caixas empilhadas, quatro malas por fazer e um colchão no canto da sala, onde resolvi encostar as minhas saudades. Mas, de todos os silêncios, o pior era o seu.

A minha vontade era de te ligar e pedir que fosse correndo me ver, porque estava quase amanhecendo e de manhãzinha eu já ia me mudar. Mas prometi pra mim que não ia te dizer nem uma só palavra a mais. Não queria te perturbar de novo com os meus problemas ou me tornar mais um dos seus.

Quando eu dizia que pensava em me mudar de cidade, você comentava: “Vai! Vai ser melhor pra você”, e eu tentava entender como poderia ser melhor sem te ter por perto. Você falava pra eu parar de querer abraçar o mundo, que assim eu resolveria os meus problemas, mas, mal sabia que eu carregava o mundo nas costas só pra te abraçar. Eu inventava inúmeros argumentos pra justificar a minha vontade de não ir embora, enquanto, na verdade, eu só queria te perguntar: “E se eu for, o que vai acontecer com a gente?” Mas essa interrogação ficou guardada. O tempo que vai responder.

Você pode achar que eu dramatizei essa história de me despedir. Sei que nem me mudei pra tão longe e, francamente, distância pra mim não seria problema – ela já existia, ultimamente, mesmo enquanto morávamos perto. Mas foi difícil fechar a porta, literalmente, sem pensar em todas as vezes que abri a mesma porta pra te ver chegar. Eu gostava de brincar de ser sua dona e de te ver voltar, cedo ou tarde, com um sorriso lindo no rosto e um cheiro só seu – não do seu perfume, da sua pele. De fazer do meu lar, nosso lar, mesmo que por alguns dias.

Não sei por qual motivo tudo se perdeu e, francamente, prefiro nem saber. Só sei que você se calou no momento errado. Eu poderia ter partido com uma lembrança boa do que vivemos e acreditaria que a distância foi a única vilã. Mas você me virou as costas quando eu mais quis que estivesse comigo e eu vim embora com um vazio enorme, como quem saiu da sua vida sem ser notada. Ou talvez você tenha se calado justamente pra eu poder vir em paz. Porque, se estivéssemos bem, eu teria criado inúmeras alternativas do que poderia ter acontecido caso eu tivesse ficado e ainda me sentiria culpada. Sendo que, no fim das contas, se eu tivesse ficado, nada iria acontecer.

Obrigada. Foi justamente o seu silêncio que me fez resolver partir. Porque, de todos os motivos que eu tinha pra ficar, você era o mais forte. Confirmei isso quando percebi que te perdi e não me importaria em perder qualquer outra coisa naquela cidade.

E você tinha razão. A vida está melhor por aqui. Mas, hoje, depois de quase duas semanas tentando superar o seu silêncio, uma surpresa: seu nome na tela do meu celular. Uma dúzia de palavras dizendo que soube que vim embora, encerrando a conversa com um: “Espero que esteja tudo bem.” – Espera que esteja tudo bem? Sério mesmo? E eu devo dizer o quê? “Ah, que bonitinho, obrigada por se preocupar comigo”?! – Pelo amor de Deus, o que você tá falando? Eu cansei de engolir suas desculpas e fechar os olhos para os seus erros enquanto você espera que fique tudo bem. Eu cansei de fingir que está tudo bem só para tentar, de fato, deixar tudo bem entre nós. Mas, no fim das contas, não faz mais diferença nenhuma fingir ou ser sincera. Resta apenas a banalidade de um “tá tudo bem sim”, inundado de lágrimas.

Dói, sabe? Fazer tudo pra te ver bem enquanto você espera que eu fique bem.

FONTEAmor Ano Zero
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