Esse nosso governo tão tristemente engravatado

E que fala em representantes do “mundo feminino”. Socorro.

 

GRAVATA COLORIDA

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Solano Trindade

*

Conheci esse poema através do meu pai. Um dos livros de direito que ele escreveu tem esse poema como epígrafe. Sempre adorei esse texto e sempre adorei o fato do meu pai ser exatamente assim: um homem normal que usa terno e gravata para trabalhar, mas nunca um engravatado cultuando o mundo dos engravatados.

Nesses últimos dias percebi que o poema de Solano Trindade diz muito sobre o momento que atravessamos.

O governo provisório-que-não-se comporta-como-provisório de Michel Temer é um governo tão tristemente engravatado… Não falo aqui, simplesmente, de um governo que usa terno e gravata. Mas de um governo absolutamente engravatado, porque existe uma filosofia engravatada por trás (pela frente e pelos lados) dele.

É um governo no qual somente gravatas ocupam os Ministérios. No qual saias só entrarão- com muito esforço- nas secretarias. Um governo no qual as sandálias de couro nunca entrarão. Nem all stars encardidos. Pés descalços então, jamais. O salto 15 com glitter também não terá lugar. Assim como tudo o que não for sapato de couro, bem masculino e bem engraxado.

O que quero dizer é que este governo nunca será um governo plural, como todo bom governo deve ser. No Canadá temos um governo composto por uma nadadora paraolímpica, um astronauta, um veterano sikh condecorado pelo serviço no Afeganistão, uma refugiada afegã, um ativista injustamente preso na Índia por terrorismo, um ex-jogador de hóquei que ficou paralisado num tiroteio, entre outros. Pois é. Na hora de falarmos da segurança, do transporte público eficiente, da baixa mortalidade infantil, não temos dúvidas em pegar países como o Canadá como modelo. E agora, José?

Temer teve a chance de fazer tudo bonitinho, como manda o figurino. Escolher só a galera ficha limpa, representar os principais núcleos de interesses políticos, nomear pessoas de perfis e origens diferentes- nem que fosse só por uma questão de aparência. Mas não. Ficamos num circuito tão masculino, tão branco, tão hétero e tão, tão engravatado. Os mesmos rostos errados de sempre.

Me doeu muito ver gente- inclusive mulheres- tentando justificar a ausência de mulheres nos Ministérios. “Isso não quer dizer nada”, “Parem com esse mimimi”. Bem, a ONU criticou nosso Governo-Clube-Do-Bolinha. Mimimi da ONU? Difícil argumentar. O presidente interino chegou a dizer que buscaria representantes do “mundo feminino” para compor o governo. Ora essa, Temer, “mundo feminino”? O que é isso? Um universo à parte, com flores e receitas de bolos? Quem fala em “mundo feminino” já demonstra que não entendeu nada ou que está realmente mal intencionado.

O livro de Direito Constitucional do Professor Michel Temer já esteve na minha estante. Atualmente, nem sei se está na dele. Caso esteja, acredito que ele tenha se esquecido da parte que analisa o preâmbulo da Constituição Federal de 1988 que afirma que devemos ter “a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”.

Ou talvez ele não tenha esquecido. Talvez tenha pura e simplesmente ignorado, enquanto apertava o nó da sua belíssima gravata.

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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