Escolher é sofrer

O homem e sua incapacidade de lidar com o excesso de opções.

Uma amiga me contou uma história engraçada que no fundo diz muito sobre nós. Ela estava com o namorado e entrou em uma loja de sapatos, coisa na qual ela é apaixonada, e este lugar parecia um sonho por ter tudo que se pode imaginar de modelos, coleções, cores, estilos e uma infinidade de opções que a deixou com cara de criança conhecendo a Disneylândia. Seu namorado, vendo o deslumbre dela, disse algo bombástico: escolha um de presente que eu dou para você. Foi o suficiente. Ela desatou a chorar no meio da loja sem conseguir escolher um modelo entre tantas opções.

O que minha amiga sentiu é algo que alguns pesquisadores estão buscando compreender melhor. Segundo eles, o excesso de opções causa angústia intensa e afeta também o comprometimento que temos com as coisas, além disso tudo, nos deixa mais dispostos a certa imobilidade, inação. Um pensamento um tanto controverso, pois costumamos acreditar que ampliar nossas opções de escolha em qualquer âmbito nos trará mais liberdade, sendo também algo positivo para a diversidade. Por outro lado, a atual pluralidade que existe em tudo parece tirar a profundidade das coisas, tornando-as superficiais.

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology nos indica a algo que muitos sábios, filósofos e até religiões já diziam sem nenhuma base científica: algumas vezes mais é menos e menos é mais. Para chegar a esta conclusão, pesquisadores de quatro universidades americanas recrutaram voluntários que tiveram de fazer escolhas em ambientes diversificados como shopping center, sala de aula e laboratório. Em seguida, eles tiveram que resolver problemas de aritmética. Os resultados foram que quanto maior o número de opções oferecidas nas atividades anteriores, pior desempenho eles tinham nos testes. Segundo o estudo, até mesmo as escolhas prazerosas têm impacto negativo sobre o raciocínio, por consumir recursos cognitivos importantes.

Outro teste resolveu entender o poder de decisão das pessoas quando confrontadas com muitas opções. Em uma loja dos EUA conhecida pela ampla variedade de produtos de uma mesma categoria, a pesquisadora Sheena Iyengar montou duas barraquinhas de degustação de geleias. Este estabelecimento tinha mais de 340 tipos e sabores à disposição para a venda. Na primeira barraca montada havia 24 opções de geleia; na segunda, apenas 6. Obviamente que a barraquinha com mais sabores fez mais sucesso e teve maior visitação em comparação à sua concorrente. Porém, quando observamos quantas pessoas estavam mais propensas a comprar um pote o resultado é inverso. Das pessoas que pararam na barraquinha de 24 sabores, apenas 3% compravam um pote. Já na barraquinha com menos opções, 30% levaram um pote de geleia.

Estes estudos pretendem mostrar a maneira como a diversidade age no processo de decisão e também como ela afeta a qualidade das escolhas. Nos tornamos inseguros frente a inúmeras opções. Quanto mais alternativas, mais medo sentimos de errar, falhar, sofrer ou desperdiçar outras oportunidades que poderiam ser mais vantajosas. Com isso, muitas pessoas simplesmente “travam”. É possível considerar que naturalmente somos seres que se autoconhecem muito pouco, não somos estimulados a enfrentar nossos defeitos, encontrar nossas fraquezas, identificar neuroses ou aquilo que nos tira do sério, por isso é complicado ter precisão de nossas reais necessidades e até de entender o outro. Com isso surge um mundo multifacetado no qual o marketing reflete bem esta realidade. Existe uma gama de nichos, segmentações, mercados, personalizações e muitos recursos que criam necessidades e nos dão a possibilidade de atingir a satisfação via consumo. Sob este ponto de vista, a escolha se torna algo delicado, pois nossas decisões são tomadas em cima de necessidades inventadas e não vitais.

E não são poucas as coisas que escolhemos, fazemos em média 70 escolhas em um dia, esse número quase duplica para pessoas que ocupam cargos executivos ou de liderança. Pensar sobre a qualidade dessas escolhas é essencial uma vez que são elas que nos definem. Ser é escolher, aquilo que decidimos revela nossa personalidade. Porém, não podemos nos esquecer que nossa escolha nunca é individual, por mais pessoal que ela seja, ela sempre irá refletir no todo.

Quando visualizamos um mundo de opções colocamos em dúvida a nossa capacidade de escolher para nós mesmo aquilo que é melhor. O resultado é que SE decidimos, geralmente optamos por algo que não reflete nossas necessidades, e o fazemos de forma desacreditada com a esperança de ser traído ou enganado por esta escolha. Alain de Botton, famoso por sua visão de filosofia para substituir religião, afirma que “quando algo ameaça revelar o lado difícil de nossa natureza, a tendência é culparmos o outro”. Portanto, neste caso, talvez não seja culpa do excesso de informações, mas sim da nossa incapacidade de refletir sobre elas, de coletar estes dados e transformá-los em conhecimento.

É inegável os benefícios que a tecnologia e esse boom de conteúdo nos proporciona, a velocidade de seu acesso em tempo real e as inúmeras qualidades que seu uso trouxe à vida prática. Porém, superestimamos nossa capacidade cognitiva. Em certo ponto, podemos afirmar que a criação superou o criador e a tecnologia está acima do homem. Precisamos garantir que mais informação não seja um entrave e que possamos fazer as melhores decisões mesmo com inúmeras variáveis.

Infelizmente, só ter a informação disponível não implica na evolução social. Se as pessoas têm dificuldade em coletar esses dados espalhados, aglutiná-los, refletir sobre eles e devolvê-los em forma de conhecimento, é inútil ter acesso a essa base, o que transforma toda a informação em não-informação. A não-informação funciona como núcleos de assuntos redundantes que ficam sempre em torno de si, sem interação. Uma espécie de alienação similar ao fanatismo, é uma informação inútil por não poder ser compartilhada.

“Quanto mais sabemos, menos seguros nos sentimos”, escreveu Wayne Luke, autor de um livro que compara o ambiente de excesso de informação que existe a uma areia movediça. Como resposta a essa afirmativa, a famosa frase atribuída ao filósofo Sócrates cai como uma luva: “Só sei que nada sei”. Um caminho crucial da filosofia é ir descobrindo mais e mais para se descobrir que ainda há muito o que se descobrir. Acredite, o mundo não ficará mais singular só porque temos dificuldade em lidar com a pluralidade. Na verdade, é nosso dever como espécie encontrar essa diversidade e saber conviver entre ela e respeitá-la (incluindo a diversidade animal e sustentabilidade).

Talvez haja um equívoco na interpretação destes dados. Usamos este excesso para encobrir nossos vazios, culpando o equívoco de nossas escolhas pela falta de foco e comprometimento que temos com as coisas. Assim fica mais fácil escolher a omissão frente a uma injustiça ou um consentimento a atitudes discriminatórias. Nestes últimos tempos, muitos fanáticos estão em evidência, tanto no cenário internacional (com o terrorismo), como em nosso País (com a política). A determinação do fanático é a prova de sua ignorância, porém tem um forte comprometimento. Todos somos fanáticos por algo. E já que este é um traço que não podemos nos desvencilhar, que ao menos possamos direcioná-lo para algo que seja construtivo. Em outras palavras, suas escolhas devem sempre priorizar o desenvolvimento do outro. Dizer que você não tinha informações suficientes para decidir qual a melhor postura perante um mundo cheio de opções já não é mais desculpa. A responsabilidade é sua.

 

FONTEObvious Mag
TEXTO DEAhas
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