Entre o azul e o rosa

Cores são só cores?

 

Outro dia fui incumbida da relevante missão de comprar cabides pro guarda-roupa da minha sobrinha. Entrei na loja e vi os cabides pequeninos embalados em pacotes com 6 unidades. Mas, é claro, 6 unidades cor de rosa ou 6 unidades azuis. Nada de branco, amarelinho ou cores sortidas.

Por falta de opção, peguei um pacote rosa e um azul. Fui ao caixa. A moça sorriu e disse “Você tem um casal?” eu sorri de volta e disse “Não, nem brinca, é só uma menina, e é filha da minha irmã”. Ela não teve dúvidas, saiu de trás do caixa e falou “Tem mais pacote do rosa aqui! Vou trocar os azuis pra você!”. Eu disse que não precisava. Ela insistiu “Não me custa nada!” e eu tive que explicar “Desculpe, você não entendeu, eu quero levar metade rosa, metade azul. Eu não quero tudo rosa.”. Ela respeitou, mas com certeza não achou que eu era uma boa tia.

Eu até entendo que para a ciência e para os órgãos cadastrais seja importante criar dois lados: masculino e feminino. Mas será mesmo que a gente também precisa, todo dia, todo dia desse preto no branco? Ou melhor, desse azul no rosa?

A gente já nasce sem escolher a cara que vai ter, a família na qual vai nascer, o bairro onde vai morar. Será que não podemos dar às nossas crianças um mínimo de liberdade para escolherem as cores da própria vida? Porque por trás das cores reside toda uma ideologia que nos limita, nos restringe, nos amarra.

Quando criança, tinha um brinquedo dos sonhos: um kit de xerife. Tinha chapéu, estrelinha, algema, espingarda. Minha mãe vetou. Achei que era porque era de menino. Mas não, ela sentou comigo e disse que não achava legal um brinquedo com arma, algemas e tal. Me perguntou se eu não gostaria de um carrinho de controle remoto. Pirei. Meu universo dobrou de tamanho. Uns anos depois pedi para que meu quarto fosse pintado de azul.

E o que aconteceu? Nada. Será mesmo que alguém acha que um quarto azul e um carrinho de controle remoto me masculinizariam? Ou mudariam minha orientação sexual? Será mesmo que as pessoas ainda reduzem as discussões sobre sexualidade ou identidade de gênero a cores e brinquedos? Será que ainda podemos ser tão levianos e limitados, confundindo cores, brinquedos, sentimentos e caminhos?

Por este raciocínio, crianças que ganham brinquedos coloridos se tornariam adultos pansexuais e crianças que ganham tudo branco se tornariam assexuadas. Conversa de maluco né? Também acho. Tanto quanto essa de meninas terem que ter tudo rosa e meninos tudo azul.

As pessoas se preocupam com tantas coisas de seus filhos… Ferver a mamadeira, usar a melhor fralda possível, agasalhar direitinho, proteger de assaduras. Que tal nos preocuparmos também em torná-los pessoas mais livres, com menos dogmas, vivendo num mundo com menos rótulos?

Vamos deixar que os meninos usem roupas cor de rosa e deixar as meninas pintarem seu quarto de azul?

Vamos dar pistas de corrida de carros a elas e bonecas a eles?

Vamos lembrar as meninas de que elas também podem ser pilotas e os meninos de que eles podem ser pais incríveis?

Vamos dobrar o tamanho do universo das nossas crianças?

Vamos mostrar a eles que entre o azul e o rosa há dezenas de cores com as quais eles podem, diariamente, colorir as próprias vidas?

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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