Em terra de bentinho, todas somos capitu

Existem três tipos de pessoas: As que defendem Bento Santiago, as que defendem Capitu e seus olhos de ressaca, e as que nunca leram Dom Casmurro.

 

Machado de Assis deixou-nos uma dúvida eterna, afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Seria Bentinho uma pessoa com desordem mental, que se deixava levar pelas impressões, ou realmente Escobar fora-lhe infiel, dando cabo a sua amizade?

Questionamento em eterna em ebulição, como um líquido que nunca derrama, e que não cessa o subir e descer até a borda do recipiente que o comporta. É assim a dúvida cruel que assola o corações dos leitores de Dom Casmurro.

Temos vários defensores de Bento Santiago que juram de pés juntos que Capitu cometera adultério. Poucos defendem-na.

Bento Santiago conta com inúmeros porta-vozes em seu favor. Mas, e quanto a Capitu? E quanto a nós?

Capitu fora uma mulher em tempos mais machistas que os dias atuais. Se hoje, nós mulheres, já somos estereotipas, rotuladas e julgadas apenas por sermos mulheres, imaginem só na época em que se desenrola o romance.

“Mulher não pode isso…” , “ Mulher não pode aquilo…”, “Lugar de mulher é em tal lugar…”

Que mulher nunca se sentiu oprimida pela sociedade machista em que vivemos, atire a primeira pedra. Quem nunca se sentiu inferiorizada e tratada como sexo frágil? Quem nunca quis gritar ao mundo que sua feminilidade não é sinônimo de fraqueza?

Mas que mulher nunca soube que suas palavras não seriam ouvidas, e se ouvidas não seriam respeitadas!

Ainda hoje mulheres recebem salários inferiores aos homens em cargos semelhantes. Tem pouco acesso a política. Poucas mulheres ocupam cargos de chefia.

Em grande parte somos tratadas como Capitu, tidas como devassas, errantes e tresloucadas. Circula na sociedade um discurso de igualdade entre homens e mulheres, tratamentos igualitários e coisa e tal. Mas na prática, ocorre quase sempre o contrário.

Nossos gritos ecoam mudos.

Já tivemos um grande avanço, mas o caminho ainda é longo e a estrada é cheia de obstáculos.

Maria Joaquina era “A Louca”, Alexandre era “O Grande”. Em resumo, desde tempos remotos, homens são exaltados e mulheres inferiorizadas. Com Capitu não foi diferente. É triste saber que, ainda, em terra de Bentinho, todas somos Capitu.

FONTEObvious Mag
TEXTO DERafaela Silva
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