Do começo ao fim.

Os primeiros meses são compostos por momentos anestésicos, puro êxtase. Um tempo depois, já se consegue pregar alguns quadros de cabeça pra baixo, escrever ao contrário e falar algumas coisas pelo avesso. Tudo bem, é ”normal” vai. Dois anos, começam a surgir algumas consequências dos tantos dias que se passaram juntos e por aí vai… A paixão não sobrevive aos primeiros meses porque se despede antes da partida e vai embora antes da chegada. A chegada por sua vez, não crava nenhum momento que continue a escorrer pela boca com ’’gostinho de quero mais”, mesmo que por dentro esteja em situação de calamidade. Seco, vazio e a espera de um último beijo. A paixão acaba antes mesmo do último beijo, ou somos nós que vivemos a esperar de sempre mais, sem aceitar e entender que a paixão não oferece mais do que o combinado, nada que ultrapasse as fronteiras. Ah paixão! Enfim… Aqui e agora, não vem ao caso.
Depois, é possível notar os defeitos na superfície, sentir o cheirinho de suor do tempo que correu depressa e reparar que não é o mesmo cheiro do início. Não estou dizendo que ao longo do tempo todo relacionamento tem o destino traçado pelo desgaste. – Apesar disso ser meramente uma verdade -, apesar de algumas revistas retrocederem essa afirmação para tentar convencer de que você precisa mesmo é se entupir de brigadeiro e sorvete em busca de um aumento de prazer (que talvez, nunca vai existir através desse método), ou aflorar uma felicidade mesmo que esteja enterrada sete palmos debaixo do seu próprio ”eu”. Na verdade, apenas aumentando o colesterol e o risco de diabetes, por isso o desgaste psicologicamente se converte em um prazer, e esse prazer te faz acreditar que aquela pontada passou pra outra casa. Só que não. Na manhã seguinte, voltou a bater em tua porta e te perturbar até não se sabe quando. Apesar das dez dicas infalíveis de uma apresentadora de um programa de culinária matinal qualquer, de como temperar a falta de tempo, de como tirar a gordura do peito com mais facilidade sem encardir a vida, e de perder tempo tentando cozinhar o coração em água fervente. Apesar de algumas palavras do Shakespeare. Apesar do astral indicar boas previsões pro sábado. Apesar das indicações e precauções da bula, do que evitar, do que tomar pra acalmar o desconforto. Apesar das informações nutricionais. Tudo bem que é recomendado conferir as informações atrás do produto antes de consumi-lo. Mas quem nunca devorou alguma coisa e esqueceu de olhar as informações nutricionais? Ou quem simplesmente ignora e pensa em apenas se saciar sem se preocupar com as calorias? Que atire a primeira pedra! Eu mesmo! Já devorei vários amores por aí que gastaram alguns dos meus dias, seja trancado no banheiro ou engolido pela minha própria cama. Apenas acompanhado da insonia e falta de orgulho, que por vezes me cegou pra vista lá fora. – Acredite, existe muita coisa do lado de fora quando um amor se desprende e se estabaca no chão – Alguns que me trouxeram inchaço no peito, que me deram mal-estar e tempo perdido. Alguns que acabaram com a confiança que depositei e jogaram fora todo o conceito que me fazia acreditar em amor para sempre até aos 17 anos, ou pelo menos, era apenas isso que queria acreditar. Talvez esse tenha sido o motivo que jogaram fora o que tentei empurrar de goela abaixo. Amor vencido. Quem nunca provou um amor sem se importar com as letrinhas que avisam a qualidade do produto? A gente aprende um pouco depois. Tudo bem que no amor ninguém repara o preço (mesmo que seja aquele amorzinho de beira de estrada super barato, que se paga muito caro no final das contas). A gente esquece a data de vencimento. Depois de tudo, pedem pra agitar antes de beber. Agitar é o caralho!
Nada fica intacto. Nada continua como era antes, e isso é óbvio. O tapete não permanece limpo. O ponteiro do relógio nunca está no mesmo lugar. O relacionamento não permanece no mesmo banco que marcou o encontro do primeiro dia. Em alguns casos, não se vê mais rastro de sombra, não se vê mais luz no finalzinho do túnel, não se vê mais esperança que dê certo depois de tantos vendavais. Ao contrário do amor que chega manso, calmo e permanece. A paixão, para alguns… Morre na praça, é devastadora, arrebenta tudo e vai embora. Deixa a ausência. Inclusive, ausência é algo que me tortura de um jeito inexplicável. Se bem que, a gente tem uma mania de se torturar antes da hora e mais ainda depois. Talvez por algo que não é exatamente aquilo que queremos ou que esperávamos pro momento, sem saber o que de fato vem depois, quando as cortinas se fecham. Ou por notar que a ausência aumenta cada vez mais, e que, consequentemente, o dia fará a gente enxergar que o tempo perdido possa estar mais próximo do que nunca. É difícil. É complicado ser obrigado a enxergar que depois de tanto tempo sonhando alto e querendo o além, acabou. Isso que acontece com quem se sente dependente de alguém. É uma culpa que temos que levar até o funeral do nosso amor, até a missa de sétimo dia, quando resolvermos, um dia, aceitar que definitivamente acabou.
Não vou dizer que seja normal que em uma relação o casal fique se esfaqueando. A construção de um relacionamento sadio – o que é bem difícil devido ao comportamento egoísta de um, ou ao temperamento difícil do outro, mas não impossível – é o casal quem constrói. Deve ter o prazer de amar o outro, deve ter o prazer de estar com outro, deve ter o prazer de passar o tempo todo com outro, de ligar pro outro, de jogar conversa fora com o outro. Deve ter em tudo, o prazer sem preocupação com o preço a pagar depois. Quando isso não ocorre, começam a aparecer alguns sintomas de amor enfraquecido, cansado e espremido entre dois sujeitos que, ainda tentam dominar a frase que carrega o termo clichê ”eu te amo”, sem pôr vírgulas entre as dificuldades, sem pôr pontos em tempestades passadas. Daí nenhum remédio cura definitivamente a ferida. Sempre sobra tempo pra ralar o joelho em outra discussão. Sempre sobra um tempinho pra falar o que doeu na noite passada mais uma vez e machucar mais um pouquinho. Surgem outros sintomas… O cansaço e a dificuldade de aceitar ou de resolver um desentendimento que já virou uma tempestade, e que no final, acabou bagunçando os dois lados. Ninguém quer mais arrumar a bagunça.
Eu que sempre pensei fazer parte do grupo dos mamíferos mais fortes – quero dizer, apenas em conceito de sentimento – me encontro perdido na vida, afundado nas minhas próprias incertezas, sofrendo dramas que não são meus e cavando meu próprio buraco. Os mesmos assuntos, as mesmas perguntas, as inevitáveis respostas. Dói falar tudo o que machuca. E é por isso que prefiro guardar (na maioria das vezes). Sinto como é prender a curiosidade de bisbilhotar o perfil dele no Facebook pra ver se surgiu alguma foto nova com sorriso no rosto, alguma frase do Caio ou algum trecho citado por Chico Buarque que demonstre serenidade, felicidade e sensação de que está tranquilo, de que tudo já deu certo na vida dele e de que o ontem já não faz tanto efeito. Que a tempestade que pensei, pra ele apenas foi um chuvisco que beneficiou o que estava sem cor e passou pra deixar o dia com cheiro de terra molhada. Apesar de chegarmos ao fim (talvez mais uma vez). Sei como é complicado suportar a verdade de que não foi como um filme onde quem se sente mais culpado retorna e taca pedrinhas na janela pra se desculpar. Não teve desculpas. – Na verdade, a paixão também rouba os pedidos de desculpas. Mas quando o amor vai embora de vez, não existem janelas, nem você, nem o que viveram juntos que o faça voltar. Um dia a gente aprende, aceita a dor de portas abertas, cumprimenta o fim e ainda o convida pra tomar um Quinta do Morgado numa sexta-feira à noite.
”Meu doce, eu tenho que te dar uma notícia amarga!” Eu sei que é difícil dar uma de durona e não atender as ligações. Eu sei que é difícil acordar e não ler nenhuma mensagem na caixa de entrada. Eu sei que é difícil perder as esperanças em quem já serviu de inspiração. Eu sei o quanto é difícil perder a partida sem querer e ainda aceitar que o time do fim ganhou nos quarenta e três do segundo tempo dessa vez, e que não tem outra partida, e que não tem outro começo, e que só resta ir pro banquinho e aguardar um próximo jogo que te faça aceitar ou que também aceite entrar em campo e fazer das tripas o coração pra emplacar. Eu sei o quanto é difícil recusar a sensação de que existe algum detalhe no refrão daquela música que ainda te faz lembrar, mesmo quando deseja só esquecer. Eu sei como é, eu sei. Eu sei como é ser expulso do verbo amar e conjugar apenas o verbo gostar (ou não) ainda que na primeira pessoa do singular. Me desculpe a franqueza, eu sei o quanto é difícil de admitir. Isso talvez já  deixou de ser amor há muito tempo, ou talvez nunca foi. E certamente você não vai admitir isso até aqui. E se acha isso, você acabou de perder muito a vontade de ler este texto até o final. Eu sei que é difícil admitir e que às vezes a gente precisa aceitar mesmo que em cima da hora. Tudo bem, o texto já chegou ao fim e você já pode sair pra beber um copo d’água.
FONTEIandê Albuquerque
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