Como é viver no mundo dos solteiros

Todos querem viver como num conto de fadas – uma fada madrinha, um príncipe, um final feliz garantido pela eternidade – e, curiosamente, poucos estão, de fato, propostos a isso. Muitos ainda esperam pela maçã envenenada, pela madrasta esquizofrênica ou pela agulha enfeitiçada com uma esperança tão grande quanto a vontade de ficar mais um pouquinho na cama, de manhã.

Os dias passam e, cedo ou tarde, você percebe que o rato escondido na rua da sua casa não vai falar com você, e sim tornar o quarteirão uma questão de saúde pública. Aquele cara bonitinho da faculdade, que senta exatamente três cadeiras à sua frente, todos os dias, não é um príncipe – você já o viu comendo um x-bacon, ouvindo sertanejo universitário e brigando com a ex na porta da balada – e está bem longe de ser um cavalheiro vegetariano hipster.

Sua mãe, que antes parecia ser a fada madrinha perfeita, não para de te ligar pra pedir conselhos sobre o terceiro namorado dela, só neste ano – sim, ela já namorou três caras diferentes e você continua encalhado. Sua melhor amiga realmente começa a parecer muito mais uma moreia venenosa do que uma sereia, enquanto todos os seus amigos de infância parecem conquistar os sonhos de trocar barbatanas por pernas e saem caminhando por aí.

O importante em perceber que, não, nunca chegaremos a viver um conto de fadas, é ver que talvez os seus sonhos tenham amadurecido tanto quanto você. Um apartamento bem apertadinho, lotado de almofadas, CDs e pipoca, parece o melhor palácio a se morar. Aquele cara do seu trabalho, que abre um sorriso lindo todas as manhãs quando te deseja bom dia, ficaria ótimo montado num cavalo branco. E pode ser que você tenha se tornado conselheiro amoroso real da sua mãe.

A ânsia em ser magro, rico, bem-sucedido e feliz – muito mais por pressão social do que por vontade própria – transforma relacionamentos em moedas: ou é cara, ou coroa. Não há meio termo. Ou vocês são felizes para sempre de verdade, têm dois filhos – e, claro, a menina cinco anos mais velha do que o menino – um cachorro chamado Max e uma casa em Ubatuba, ou você casa com o primeiro que aparecer e vive infeliz (até o divórcio ou eternidade adentro).

Ser solteiro dói. Enquanto seus momentos de sair todo domingo à tarde sozinho para tomar um café – já que todos os seus amigos estão dormindo abraçados com os namorados no sofá – parecem não ter fim, sua vida se torna um inferno. Qualquer beijo que acontece na novela já te faz ficar apaixonado por aquele casal fictício na hora, em meio às lágrimas. A garota mais esquisita da sala começa a namorar, e faz questão de andar de mãos dadas por todos os cantos. Sempre tem um casal abraçado no metrô, outro se beijando no ônibus, e mais um discutindo sobre o filme que irão assistir na porta do cinema. Sua melhor amiga te manda uma mensagem de madrugada, pedindo algum conselho, porque acabou de brigar com a namorada. O cara que você achou feio três meses atrás resolveu ir à academia depois do seu fora – e agora ficou gostoso e namora o menino que você mais odiou no Ensino Médio.

Além, claro, da sua turma de oitava série resolver marcar um reencontro, e todos levam seus respectivos amores – até aquela menina nojenta que era BV namora um modelo – e você vai sozinho, na fé de não tentarem te empurrar algum outro solteiro ou questionarem a sua vida amorosa enquanto se entopem de batatas fritas. E, de tanto encherem sua paciência pra falar sobre todos os seus quase-relacionamentos-que-nunca-chegaram-ao-fim, você acaba percebendo que comeu mais do que devia. Ótimo. Além de solteiro, sua cara talvez encha de espinhas. E os planos de começar a academia só mês que vem, mudam pra “começar a academia ontem”.

Seus únicos amigos solteiros que sobraram são exatamente os que só querem curtir. E, bem naquele dia que você realmente tinha de ficar em casa pra terminar um gráfico pro seu TCC, eles te chamam pra balada. Lógico que você vai, gritando esperança. Amor de balada não amanhece, mas, por mais que você já tenha recordações negativas o suficiente, você arrisca. O primeiro cara que chega, à 1h13, tem bafo – não importa se ele é bonito ou não; tem bafo. O segundo, mais ou menos às 3h27, chegou te agarrando pelos cabelos – e você, logicamente, beijou, porque bateu o desespero de são-quase-quatro-horas. Assim que o beijo termina, e você tenta perguntar o nome do seu futuro pretendente, ele já está longe, na parede oposta a você, agarrando um carinha genérico qualquer da noite.

Uma garota esquisita, de blusa preta e cabelos cor-de-rosa esbarra em você, e sua caipirinha cai no chão. Começa a tocar a música que tocou no carro do seu ex, naquela última vez que vocês foram jantar, e ele tentou te arrastar pro motel, super grosso. A primeira lágrima ameaça escapar. Você vira pros amigos e solta um “Vou ao banheiro” com uma mão na frente da boca. Você paga a comanda e corre em direção à verdadeira liberdade: a fila de táxis.

Resultado da noite: cento e vinte e sete reais mais pobre, sóbrio e desabafando com um taxista palmeirense de 67 anos – que tem uma filha linda, formada em Direito, casada com um americano, grávida de gêmeos.

Chega o inverno e o seu feed de notícias do Facebook fica lotado de imagens de casais abraçados e um bocado de cantadas típicas e bregas, como a “Vem aqui me esquentar?”. Você, que engordou três quilos a mais desde aquele reencontro tenebroso com sua turma do Ensino Fundamental, decide ir pra a academia a pé – e, não mais que surpreendentemente, pega uma gripe daquelas, passa o sábado inteiro tomando Xarope Vick e não consegue ter forças nem pra pensar em levantar do sofá e ir pra alguma balada fazer a social.

Num belo dia, em um almoço com sua melhor amiga, ela te conta a última: conheceu um cara no Tinder, resolveu sair com ele, e: bingo. Ele é alto, fala francês e italiano, faz Muay-Thai quatro vezes por semana, assiste a filmes cult no Cine Augusta, é pandeísta e já testou a maioria das posições do Kamasutra. Pronto. Os dois se apaixonaram e agora pretendem fazer um mochilão pela América Latina, pra selar esse novo amor que só o destino poderia ser capaz de criar.

A vida de solteiro é assim: todos à sua volta namoram. Andam de mãos dadas, se beijam na padaria da esquina, assistem Sessão da Tarde juntos, usam alianças enormes que reluzem qualquer brilho em direção ao seus olhos. E você, mesmo que estivesse flertando com algum carinha qualquer via WhatsApp, se sentiria sozinho.

O namoro e a pegada se diferem exatamente aí – o primeiro, promete. E a vida é feita completamente por promessas. O segundo, a pegação, engana. Traz um monte de dúvidas pra cabeça, faz a gente comer um pote inteiro de Nutella questionando as intenções do cara e, ainda por cima, quando acaba, destrói mais do que namoro.

Então, o quão menor forem as exigências, maiores serão as opções. Isso não quer dizer que você deve ser fácil – mas, já parou pra pensar que, o novo namorado da sua amiga, pode ter um amigo? E ele pode jogar vôlei, ser dentista e trabalhar como voluntário em uma ONG de animais abandonados?

Os príncipes nem sempre vêm carregados de ouro e músculos. E chorar em casa ouvindo Too Little Too Late não vai trazer seu ex de volta, e muito menos fazer com que um deus grego bata à sua porta.

A realidade assume papéis inesperados. A sua verdadeira história acontece e passa desapercebida, enquanto sua cabeça fantasia contos impossíveis e tenta incansavelmente trazê-los à vida. Aceite. Precisamos, muitas vezes, espetar o dedo antes de tentar dormir. Arrisque.

Corte o cabelo, baixe um aplicativo romântico, se inscreva num reality. Viva você e narre seus próprios passos. De repente, quando menos se espera, o “Era uma vez” começa pra valer.

E, dizem, que essa história costuma acabar em “felizes para sempre”.

Lembre-se: ser solteiro faz parte. Ensina. Aconchega. Faz a gente amadurecer. Ser solteiro mostra pra gente como é importante nos amarmos, antes de qualquer coisa. Como é que você pode amar alguém, se ainda nem ao menos ama o que vê no espelho?

Então, enquanto o príncipe não chega, sorria. É melhor rir de cada história que você ainda vai viver, do que chorar por todas aquelas que estão só na sua cabeça. E o amor vai encontrar você; em algum lugar, de algum jeito.

FONTEAmor Ano Zero
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