Toda vacina é composta do vírus que queremos ficar imunizados. Os antidotos são feitos a partir do próprio veneno. É natural pensar que a pessoa que nos feriu também terá a cura.
Eu me curei de você arrumando meu armário enquanto te esperava. Tirei da agenda a lista de filmes que queria ver e assistir a todos. Foi tão bom me distrair da minha própria história! Aguardando sua mensagem, puxei assunto com amigos com quem não falava há muito tempo. E nesses novos assuntos, fui me curando um pouquinho.

 

Eu me curei de você quando terminei os livros que enrolava para concluir, e quando me desfiz de coisas que não uso mais. Agora, há espaço para coisas novas. Melhorava da minha doença quando pegava o ônibus para resolver minhas coisas, na sala de espera do dentista e no provador de roupas de uma loja.
Eu me curei de você quando usei sua ausência para curar minha própria vida. Tratei meu sistema imunológico com carinhos no meu emocional. Enquanto te atribuía poderes mágicos que me deixavam encantada, eu era incapaz de descobrir a médica, a curandeira e a farmacêutica que há em mim. Acabou a alergia que não passava, a tosse que não saía e a dor que pungia. Contrariei as bulas e as recomendações clínicas para inventar minha própria posologia.
Pena que na bula dos medicamentos (diferente dos livros) não cabe agradecimento. Eu te diria obrigada pela distância que me empurrou para dentro de mim mesma e para perto de outras pessoas. Obrigada pela falta de resposta que me fez pensar em novas perguntas. Obrigada pela ferida que me permitiu alcançar a cura da minha alma.
Obrigada por ter me curado de você.
Escrito por Laura Conrado
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