Comer, rezar, amar: Três verbos para se encontrar

Há quem diga que Liz Gilbert é uma mulher fria que abandonou o marido para curtir a vida. Há quem diga que ela é uma espécie de Bridget Jones mais magra. Há quem apenas tenha inveja e há quem diga que ela é corajosa e determinada. Eu sou da última opinião. Seria um crime grande demais ser infeliz por toda a vida porque um dia tomamos uma decisão errada ou porque não temos coragem de admitir que nós mudamos com o tempo.

 

Há pessoas que o entendem como um livro de “auto-ajuda”. Não é. Mas e se fosse? Desde quando um livro de auto-ajuda não pode ser bom? Seja pela experiência profissional, pessoal ou pelo trabalho de pesquisa do autor, existem diversos livros que nos apóiam na reflexão de questões importantes. Nem somente de Shakespeare vive o leitor.

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love, EUA, 2010) é um filme baseado no livro homônimo da jornalista americana Elizabeth Gilbert. A história é verídica e se passa em três países, pelos quais a escritora faz uma jornada a fim de se encontrar.

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Eu sou bem democrática em relação à leitura, segundo alguns critérios, obviamente. Confesso que, à primeira vista, o livro “Comer, Rezar, Amar” não me agradou. Talvez fosse o título, direto demais. Porque há pessoas que precisam que o título seja mais intrigante, tenha algo de misterioso, ao estilo Agatha Christie. Eu sou uma dessas pessoas. É claro que é uma questão muito pessoal, mas eu – que tinha acabado de sair de um relacionamento – não estava interessada em ler um livro que me mandava fazer as três coisas que eu queria evitar – por uma questão de autocomiseração ou bom senso, não sei.

Então, algum tempo depois, fui ver o filme, mesmo com aqueles três verbos que prometiam dar-nos a luz para o autoconhecimento. Fomos ao cinema em um grupo de quatro mulheres. Todas solteiras, felizes e querendo comprar alguma passagem para um lugar bem distante daqui. É claro que o filme deu certo conosco. E muito. Não somente pela identificação com a personagem de Julia Roberts, mas pela identificação com a liberdade de comer horrores na Itália sem nos preocuparmos com o ponteiro da balança no dia seguinte.

O filme era exatamente tudo o que queríamos. Largar nossa vida e cair no mundo – de boca – em outras culturas, com a desculpa de que precisávamos achar nosso verdadeiro “eu” e toda aquela conversa típica de divã ao custo de 150 a sessão.

Depois de assistir ao filme, apesar do terrível português de Javier Bardem – que interpreta um brasileiro, atual marido de Elizabeth Gilbert – fiquei intrigada acerca do livro. Pela minha experiência tive certeza de que a versão cinematográfica escondia tesouros importantes da história.

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Pois bem, li o livro. E ele consegue ser extraordinariamente encorajador e inspirador. Elizabeth Gilbert é, de fato, uma mulher forte que abriu mão de uma situação estável e conveniente para buscar o que realmente a deixava feliz. E, em um mundo no qual o comodismo e o contentamento são colossais, o livro, no mínimo, nos deixa inquietos.

O que a maioria de nós, certamente, faria – ao descobrir um descontentamento com nossa vida – seria entender isso como uma crise existencial. Choraríamos, faríamos terapia e continuaríamos na mesma. Mas Liz agiu diferente. Estava infeliz, queria mudar. Não queria o convencional – o que todas as mulheres de 36 anos desejam, ou deveriam desejar: filhos, uma casa com jardim e colchas feitas à mão, uma sopa reconfortante que borbulha no fogão – como a própria autora descreve. Não. Seus sonhos eram outros naquele momento. Mas, como dizer tal coisa para o marido e amigos? “A única coisa mais inconcebível que ir embora, era ficar”. E assim, Liz Gilbert foi-se.

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O roteiro, de uma forma genérica, é bem leal ao livro. Sua jornada começa na Itália, onde Liz rende-se aos prazeres culinários sem culpa. Mais tarde, vai à Índia procurar por alguma espiritualidade e paz interior. Sua viagem termina na Indonésia, onde encontra Felipe, o homem que conquistaria seu coração para sempre.

O livro virou best-seller e o filme foi elogiadíssimo pela crítica e consagra, novamente, Julia Roberts como uma da melhores atrizes de todos os tempos. Com a direção de Ryan Murphy (diretor das séries de TV “Nip/Tuck” e “Glee”), o longa traz no elenco os atores James Franco, Billy Crudup, Viola Davis e o charmoso Javier Bardem. A fotografia é espetacular e a trilha sonora é impecável, com músicas de Neil Young, Eddie Vedder, além da sonoridade brasileira de Bebel Gilberto.

Se deixarmos o preconceito de lado, podemos curtir um bom livro e um bom filme. É uma história inspiradora, a qual permite questionarmos, de maneira particular, nossa própria zona de conforto e até onde iríamos se realmente tivéssemos coragem. As circunstâncias de Liz foram essas, mas existem muitas outras diferentes que têm o potencial de fazer-nos ficar na mesma posição da jornalista.

FONTEObvious Mag
TEXTO DERejane Borges
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