Carta de uma namorada traída

Meu amor, vou contar-te tudo o que ainda não sabes.

Não foi de um dia para o outro que nos fomos perdendo. No fundo eu sabia que o barco, o nosso barco, o barco da nossa relação, estava a afundar-se e que esta iria naufragar. Apercebi-me da nossa morte logo após a primeira onda forte, mas calei-me não queria gerar o alarme. Havia demasiada coisa em risco para que eu deitasse tudo a perder, como se as coisas não tivessem já perdidas.

Eu sabia que te estava a perder logo a partir do primeiro dia, mas preferi ficar a assistir como um figurante. Fingi que não via nada, que não cheirava nada, que não lia nada, que não ouvia nada, que não sentia nada. Eu estava consciente de tudo o que se passava connosco, simplesmente não tive a força suficiente para colocar logo ali o ponto final.

Então preferi ser a mulher traída do que a mulher que largou o namorado… Eu devia ter-te largado logo naquela noite, na noite da verdade, devia ter-te feito a malinha e quando chegasses a casa já a tinhas à porta. Mas não, eu preferi ignorar tudo o que se passava à minha volta, preferi entrar num barco rumo ao naufrágio.

Tu eras esperto, sabias fazer bem o jogo das duas namoradas, lá disso tenho que te dar o devido valor. Não foste descoberto como todos os outros: não deixaste o soutien no carro, não chegavas tarde a casa, não tinhas batom nas camisas, não cheiravas a perfume de mulher, não recebias mensagens a horas estranhas. Tenho que te aplaudir por toda a tua inteligência no que diz respeito a traições, só lamento que eu conhecesse a outra rapariga desde que nasci.

Provavelmente deves estar a perguntar-te como é que eu a conheci não é verdade? Ela era minha vizinha, brincávamos juntas em miúdas, mas depois afastamos-nos, perdi-lhe o contacto, já nem sabia bem o nome dela. Foi ela que me procurou e me contou tudo! Ligou-me, disse que tinha que falar comigo, tinha urgência nessa conversa, pediu para não te dizer nada.

Encontrei-me com a “outra” em nossa casa numa noite em que estavas em viagem, chorou muito, pediu-me mil desculpas, disse que sabia que ele tinha namorada, mas que nunca se importou com isso até que descobriu que a namorada era eu. Disse que lamentava muito, mas que estava apaixonada por ti, não sabia como aquilo tinha acontecido, mas tinha-se apaixonado.

Imaginas bem a minha cara, quando de repente tinha ali a minha melhor amiga de infância a dizer-me que o meu namorado andava a trair-me com ela? Imaginas o meu estado de choque? Gabo-te a pontaria, no meio de tantas mulheres foste logo escolher uma que eu conhecia, tiveste azar. Nunca te falei dela antes, não havia forma de saberes que nos conhecíamos, mas tu tiveste pontaria sacana.

O arrependimento é f*dido, meu amor. Vi nos olhos dela que estava arrependida, e foi com esse arrependimento que ela se confessou e me contou toda a vossa história. Foi a partir daquela noite que eu soube de tudo o que se passava, fiquei em choque e não tive coragem para tomar a iniciativa de te mandar embora.

Não tive a coragem suficiente na altura, mas tenho-a agora, provavelmente chegaste do trabalho e encontras-te esta carta em cima da nossa cama, esperavas tudo menos isto, não é verdade? Não me ligues, não vou atender. Não me mandes mensagens, não vou responder. Não me procures, não me vais encontrar. Não me tentes pedir desculpa, já te desculpei com esta viagem que me “ofereceste”.

Estou em Itália, não queria ver-te fazer as malas e ir embora de casa, que já foi nossa. Paguei toda a viagem com o cartão que temos em comum, afinal aquele dinheiro também é meu. Não te vou dizer quando regresso, mas quero-te fora de casa quando chegar, não quero ver uma única peça de roupa tua no armário e se fizeres a gentileza de deixares a casa limpa eu agradecia.

Da agora ex-namorada que está no hotel de 5 estrelas com o “nosso” dinheiro.

TEXTO DEMaria Mestre
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