Carta aberta ao meu (quase) amor

Deu.

Cansei de respirar amor e expirar solidão. Já não dá pra economizar afeto. Fingir mesmice e disfarçar meu sorriso bobo quando dividimos a cama.

Você tinha razão.

Eu sou intensidade. Força multiplicada. Ação e reação o tempo todo.

Meu riso é honesto. Minha dor é profunda. Eu alastro , espalho, me esparramo.

Engraçado, porque era pra ser bom, mas não é.

Será que tenho mesmo que ser menos? Será que você não consegue lidar com o muito que tenho aqui dentro?

Ainda penso naquela noite em que me abraçou e cheirou meus cabelos. Silenciosamente, me pediu pra ser menos. Eu senti que você não poderia suportar as minhas explosões, mesmo quando elas fossem boas.

Você sabe, não é por mal. Mas eu não sei correr pouco. Andar engatada na primeira. Não sei dar marcha ré gostando tanto de alguém.

Não sei engolir sapos, pisar em ovos, escapar de armadilhas, arquitetar planos. Não conheço recuo. Freio. Limites. Não quando é amor. Ou pelo menos quando acho que pode ser.

E eu tentei tanto…

Tentei me calar mais e querer ser menos na tua vida. Tentei pensar menos na gente e mais na paz que senti quando dividimos partículas de nós, no início.

Eu não queria ser tudo pra você. Só queria ser o que achei que podia.

Mas eu não sou o que você precisa. Eu não caibo no teu mundo ideal. E sabe, também não posso ser aquilo que não consigo. Nem posso aceitar menos do que quero dar.

Eu quero dar as mãos. Quero andar no sol. Eu quero calmaria, mas não aceito fragmentos. Quero saltar. Quero o coração na boca, escancarando dentes de alegria.

É que eu já não tenho tempo para perder com aquilo que não vai ser. Eu tenho urgência de dias bonitos. Meu rascunho já foi feito e eu quero uma história real. E feliz.

Já escolhi minhas armas e me despi das armaduras e decidi que não entro em guerra de egos.

E tudo bem se eu tiver que lutar assim.

Eu só queria que fosse por você. Que fosse você.  Porque eu entendo as tuas feridas, e sei que você também sabe o quanto as minhas doem. Eu queria que fosse você, porque eu gostava do teu olho pequeno e do teu jeito de dormir – que tem uma paz que eu não tenho, nem dentro e nem fora de mim.

Eu queria que fosse você, porque antes de você eu não queria que fosse ninguém.

Mas você não quis.

E eu não posso te convencer. Porque não consigo me convencer que eu faria tudo diferente desta vez. Porque já gastei meu folego pra respirar o ar que me falta quando chego perto de você. Porque diante da palavra não dita e a mal dita – que fere, destrói e sufoca – prefiro te ver em paz.

Porque eu  sei pouco do amor, mas ainda que tenha sido só pra mim e aqui dentro, entendo de gratidão.

Aprendi a admitir. Não nego, nem fujo o tempo todo. Mas hoje a vida me obriga a ver que não dá pra ficar. Esperar o que não está escrito é um erro dos iludidos.

Reconheço que meus copos estão meio vazios. Porque quando as coisas não saíram do lugar, a gente sai mesmo pela metade.  De uma forma estranha, a gente leva um pedaço do outro e transborda aquilo que o outro não quis da gente. Aquilo que não dá pra dividir com qualquer pessoa.

O que acumula porque não conseguiu ser, também dói. E cala. E deixa tudo fora de lugar.

Paciência. A gente traga mais um cigarro. Engole mais um pouco dessa vida que poderia ser tão diferente.

Respira. Expira. Toma água.

Tudo bem. Amanhã é outro dia.

De repente a gente se cruza por aí.

FONTESuper Ela
TEXTO DEAna Carolina Souza
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