Caro amor da minha vida: há lugar.

Eu nunca pensei que fosse sentir tanto a sua falta e a verdade é que toda essa minha capacidade de viver e viajar sozinha não andam me bastando. Aliás, minha autossuficiência – tantas vezes prática, elogiada e racionalizada – também já está capengando e eu ando sentindo a falta dos seus pés para esquentar os meus em uma casa que sente que precisa da sua presença como nunca precisou antes.

Meu coração é um louco desvairado que sai por aí distribuindo amor pelas coisas da vida e ele está sempre quente. Por isso mesmo, eu sei: eu não preciso de você para aquecer meu coração, mas – só por hoje – me deixa dizer que preciso mesmo assim? Deixa eu dizer que eu adoro o seu sorriso e que a sua presença é plenitude; e deixa eu pensar que não é nem um pouquinho descomedido da minha parte dizer que quando você existe até o que não tem absolutamente nada a ver com você fica mais feliz (ou menos triste). Deixa eu te querer confusa e exageradamente; não por uma necessidade  –  assim, vulgar ou repleta da falta de amor – mas pelo simples fato de que eu te quero e sinto sua falta?

Sinto falta de você de tantas formas que mal posso descrever sem me perder nas minhas próprias entrelinhas. Então me perdoe pelo que vou dizer, mas me entenda: eu não preciso de você pra viver, nem pra ser feliz, nem pra não ser mal comida, nem pra nada.
Nenhum daqueles clichês me servem: eu sei lutar, trocar pneu e abrir potes 1148814_534686356587013_567713858_nimpossíveis tirando a pressão da tampa. De verdade, eu não preciso de você. Mas eu te quero mais do que qualquer palavra em qualquer dicionário do mundo possa descrever. Então talvez precise de você mais do que se eu precisasse de você, não?

Eu venci meu medo do escuro de tudo aquilo que eu não queria tocar; eu provei muitas dores e amores e – com todas as cores – eu desenhei as raízes que me fazem voar. Finalmente,  agora só falta você chegar. Percebe?

Você está em tudo e tudo anda chamando você. Ganhei um guarda-chuva em que cabem dois e até mesmo a minha mala vermelha de viagens favorita que sempre me acompanhou nas minhas aventuras-solo parece querer me ensinar  – assim, meio de repente – que é possível fazer uma maladownload pequena para dois com apenas o necessário para as aventuras que a gente ainda vai viver.  Eu sei, eu demando carinho, cuidado, gentileza, fidelidade e atenção, mas sou justa e odeio discussões desnecessárias e, se ligar nos próximos trinta minutos, receberá também – inteiramente grátis – um milhão de momentos deliciosos de uma vida vivida com intensidade  e alegria.

Então vem logo, vem? Vem logo pra gente descobrir como é o contorno dos nossos corpos com a luz das velas que estão, uma ao lado da outra, no meu Feng Shui. Vem pra gente mover as montanhas de areia do meu jardim chinês com a sorte e a delicadeza de um amor tranquilo; vem pra gente lotar minha caixa de Paris com cartas de amor ridículas – já que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.

Pode vir, imperfeito mesmo, afinal eu também sou; mas meu grande amor, por favor: me reconheça e fique e lute e faça por onde. Porque são sim os dispostos que se atraem e são os cuidadosos e carinhosos que permanecem; e quem quer raízes como as nossas precisa trabalhar por elas.

E como pro nosso amor eu cultivei o meu melhor, chega logo? A verdade é que ultimamente até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora. Chega logo, porque já cansei de dizer que eu não preciso de você e manter em silêncio aqueles parênteses mágicos que mandam ao universo um gritante (MAS É MENTIRA). Chega logo, porque há lugar, porque eu consigo muito bem viver sem você, mas eu não quero. Chega, porque eu gosto da presença, do cuidado, das risadas, do sexo e das conversas que ainda nem tivemos. Chega, porque a verdade é que um amor como o nosso – que transparece em cada toque e em todo olhar – não merece mais esperar.

Saiba que não me falta cadeira, casa, abajur, nem sala de jantar; eu tenho calma pra te entender, taras pra te morder e verbos pra te acionar. De verdade mesmo: agora só falta você.

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Escrito por Kéren Carvalho
Publicado em Sobre Delícias da Vida

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