Bem sem você

Semana passada eu assinei a minha carta de alforria de você.
E que peso eu tirei das minhas costas.
Extremamente libertador.
Sem mais lágrimas. Sem mais decepções. Sem mais mentiras. Sem mais pesadelos. Sem mais esperanças. Sem mais você.
E é tão bom viver sem você que você também deveria tentar.

Lembro da noite em que te devolvi pra sua vida como se tivesse sido ontem. E foi.
Foi ontem, foi antes de ontem e antes de antes de ontem.
E também será hoje, amanhã e depois de amanhã.
E só eu sei como é bom me livrar de você.

Estou te escrevendo para te contar como estou bem sem você.
No final de semana peguei o carro e fui para a porta da sua casa te contar isso. Você não estava. Mas tudo bem, eu esperei por 6 horas você voltar.
Como eu estava feliz!

Você chegou bêbado e com um cheiro tão enjoado de outro perfume que quase me fez vomitar.
Ninguém me contou não. Eu vi. Eu senti.
Estava escondida atrás daquela árvore onde eu bati o seu carro uma vez, lembra?
Você estava tão infeliz que quase senti pena de você.
Pegar no sono tão rapidamente daquele jeito só pode mesmo ser saudades de mim.
E aliás, por falar nisso, você deveria vestir uma camisa antes de dormir.
Você sabe que a sua garganta pode inflamar e aposto que não sabe que a sua mãe guardou os seus remédios no armário embaixo da pia.
Saúde é coisa séria, rapaz.

Descobri esses dias que a vida é muito mais bonita sem você.
Descobri que você descobrir que eu não sou o amor da sua vida, foi uma ótima descoberta para mim também.
Agora sim eu estou livre de você. E do brilho dos seus olhos que quase me cegavam. E do seu sorriso tão bonito que qualquer dia você seria preso por ele. E da sua mão grande e ao mesmo tempo delicada que vira e mexe eu me imagino esfaqueando cada dedinho. E da sua voz me dando bom dia que entrava no meu cérebro como uma praga e passava o resto do dia todo lá dentro.

Sabe, eu estou muito bem sem você. Já disse isso?
Pulo de alegria em pensar que agora estou livre dos planos que fiz com você.
Estou finalmente livre de imaginar nosso casamento, nossa casa, nossos cachorros, nossos filhos e nossa faxineira vinda do nordeste em busca de melhores condições numa cidade grande.
Estou livre das viagens que fizemos só na minha cabeça.
E das declarações de amor que você não fez, mas tudo bem, eu fiz por você na frente do espelho.
Estou tão feliz em me livrar de você por inteiro que quase não tenho mais vontade de rasgar todo o seu rosto tão perfeito que só pode ter sido criado em laboratório com a gillette que raspo a minha virilha.
Eu estou definitivamente muito melhor sem você.
Se você soubesse o bem que me fez, teria feito muito antes.

Muito obrigada por ter desistido de mim e principalmente por manter essa decisão a cada segundo que desde então você passa sem mim.
Você não sabe como é reconfortante te ver seguindo em frente como se não sentisse a minha falta. Trabalhando como se não sentisse a minha falta. Passeando com o cachorro como se não sentisse a minha falta. Saindo sexta à noite como se não sentisse a minha falta. Paquerando qualquer coisa que se mexa como se não sentisse a minha falta. Dormindo saudáveis 8 horas como se não sentisse a minha falta. Jogando as minhas coisas fora como se não sentisse a minha falta.

Está vendo só, eu disse que você sentiria saudades de mim.
E agora não adianta, viu?
Não adianta ligar para o número que você nunca mais discou. Não adianta chamar pelo nome que você nunca mais lembrou. E de jeito nenhum adianta pensar nas promessas feitas que você nunca teve intenção de cumprir. Eu não volto.
Ouviu bem? Eu não volto porque estou maravilhosamente bem sem você.
Diria até que, como qualquer um pode ver, nunca estive melhor.

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEMarina Barbieri
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