As pessoas mudam

Esses dias reencontrei uma amiga de infância e… tudo havia mudado.

Eu não a via há muitos anos. Fomos amigas na época de colégio e depois disso a vida se encarregou de levar cada uma para um caminho distinto.
Nunca deixamos de nos comunicar, mesmo que com pouca frequência e sem muita intimidade. Até que recentemente, 15 anos depois da época do colégio, tivemos a oportunidade de novamente conviver de forma intensa uma com a outra. Tive um compromisso de trabalho na cidade onde ela está morando e ela me convidou pra ficar na casa dela. Cancelei o hotel onde ficaria e aceitei o convite.

Estava empolgada. Veria a minha amiga depois de tanto tempo. Imaginei conversas até a madrugada, risadas de doer a barriga, lembranças de momentos da juventude, confissões e segredos do tipo que a gente só conta para a amiga de infância. Seria maravilhoso – imaginei.

Quando ela abriu a porta nos abraçamos por uns dois minutos sem desgrudar. Falamos o quanto sentíamos saudades uma da outra e fomos almoçar numa pensão ao lado da casa dela.

Nos primeiros minutos de conversa percebi que havia algo de errado. Aquela pessoa ali, era visivelmente semelhante a minha amiga, mas só. Em nada mais lembrava a amiga que tive. Ela estava tão… tão… diferente.
E não era aquele diferente bom não, sabe? Não era aquele diferente desafiador, curioso, onde você quer conhecer mais e mais a pessoa e quer que ela te ensine absolutamente tudo de maravilhoso que ela viu e viveu enquanto estava longe.
Era um diferente esquisito. Quase ruim. Era extremamente incomodo. Era um diferente onde eu olhava para aquela pessoa na minha frente e só conseguia pensar que se eu a conhecesse hoje em dia, eu não faria nenhuma questão de me aproximar e tê-la na minha vida.

Me senti péssima por pensar isso da minha própria amiga. Me senti cruel. Me senti insensível. E então tentei desviar aqueles pensamentos. Em algum lugar daquele corpo ainda deveria existir um pouco da minha amiga.

Procurei nela todas as qualidades que mais me recordava e mais amava. Procurei durante o almoço e enquanto voltávamos pra casa. E a procura se estendeu durante o resto do dia. Mas foi completamente  em vão. E foi aí que tive que aceitar a realidade: a minha amiga não existia mais. 

É engraçado como as pessoas mudam, não é? Sem aviso, sem sinal, sem você nem ao menos conseguir acompanhar. Um belo dia você acorda e já não reconhece mais aquela pessoa que até ontem você podia jurar conhecer cada partezinha.
Elas mudam e nem sempre é pra melhor. Elas se transformam na pessoa menos ela do mundo inteiro. E então você percebe que da pessoa que você tanto conhecia, só restou a casca. Uma casca vazia, sem vida e sem um pingo da essência de quem ela já foi um dia.

Às vezes amaldiçoamos a vida por nos afastar de pessoas que tanto amávamos. Nem sempre nossos caminhos seguem a mesma direção e sempre tem uma ou duas ovelhas que desviam para outra estrada. Acontece. A mesma vida que aproxima, também afasta. E um dia, seja lá por qual razão, todo mundo vai embora.
Mas talvez não estejamos enxergando direito. Talvez a vida nos afaste por um motivo. Talvez a vida afaste na hora exata em que tem que afastar. E talvez insistir nas pessoas que a vida afasta, seja um grande erro.

Uma pessoa que foi especial e importante ontem, que foi responsável por dezenas de aprendizados, evoluções e lembranças, pode não ser mais tão especial hoje. A presença dela ao invés de somar, pode diminuir.

Nós, seres humanos, temos dificuldade de aceitar o fim. Nos prendemos a pessoas, relacionamentos, fases e pensamentos que apesar de já terem feito muito sentido no passado, no presente são enormes pedras no sapato. Temos dificuldade em deixar o ontem no ontem. E ficamos revivendo o que já não existe mais.

É preciso aprender a desapegar. A deixar as pessoas seguirem seus caminhos. É preciso aprender a não se apegar demasiadamente ao passado. É preciso seguir em frente.

No dia seguinte, antes de ir pro aeroporto pegar meu avião de volta pra casa, dei um abraço apertado naquela estranha-conhecida (ou seria conhecida-estranha?) e desejei sinceramente que a vida dela fosse linda.
Ela podia não ser mais a minha amiga, mas um dia ela havia sido. E apesar de não termos mais nada em comum atualmente, eu ainda devo muito do que sou a ela. Em algum momento, lá atrás, ela foi importante e eu nunca esquecerei de sua importância na minha vida. Serei eternamente grata, mesmo que de longe.

Demos tchau e sabíamos ali, que aquela era a última vez que nossos olhares se encarariam. Porque ela havia mudado demais. E eu também. E quer saber? Não havia nada de errado nisso. Segui o meu caminho. E ela o dela. E não olhamos pra trás. Foi lindo.

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEMarina Barbieri
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