As cartas que nunca te enviei

Estou escrevendo para dizer que sinto saudade, para confessar que, às vezes, bate aquela vontade, para dizer que as nossas lembranças ainda estão muito vivas aqui dentro. Escrevendo para ver se esse aperto no peito me deixa respirar, para saber se você também tem o que recordar, para que, pelo menos, por um segundo, o nosso “para sempre” volte a existir. Para te lembrar de que você ainda é uma das minhas melhores lembranças e para te dizer que nossos dias difíceis não conseguiram apagar tudo de especial que vivemos juntos. Estou escrevendo para te contar que a minha cachorrinha morreu, que o meu irmão se casou, que os meus pais se separaram, que a minha tia adoeceu, que a minha avó foi morar lá no céu e tantas outras coisas que aconteceram depois que nos afastamos e que você foi a primeira pessoa a quem quis contar. Quero confessar que precisei de você nesses momentos e em tantos outros, que desejei receber o seu abraço, o seu carinho e ouvir aquelas palavras de conforto que você saberia me dizer. Assumo também que andei mentindo sobre a gente, que, muitas vezes, fiz de conta que já tinha superado e que aprendi a fingir uma felicidade que só existia do sorriso pra fora. Confesso que já te procurei em outros sorrisos e, vez ou outra, acabo esbarrando com o seu perfume por aí. É claro que devo contar também o lado bom de tudo isso. Contar que morei fora por uns tempos, que conheci muita gente interessante e que terminei a faculdade e consegui passar no concurso dos meus sonhos. Contar que me apaixonei de novo, e de novo, e mais outra vez, mas que nenhum desses sentimentos foi tão forte quanto o nosso. Que aprendi a me conhecer melhor e que hoje não sou mais aquela mesma pessoa que você viu chorar algumas vezes. Agora estou escrevendo querendo saber mais de você… Saber se você tem outro alguém, se o seu irmão passou no vestibular, se ainda sente cócegas na barriga e se guardou aquele presente que te dei no nosso último natal. Na verdade, estou escrevendo mesmo para dizer que ainda sinto a sua falta e que, mesmo que não queira, sei que vou levar você comigo pelo resto da vida. Escrevendo porque é o que me resta. Escrevendo o enredo de um filme que em nada se parece com o romance que eu tanto planejei. Registrando e guardando os meus rabiscos naquela caixa que você sempre quis mexer. Escrevendo de alma e coração, já que tenho a certeza de que você nunca vai ler. Vou escrevendo e colocando dentro do armário o sentimento e as verdades que eu nunca assumirei. Simplesmente porque, essa aqui, é só mais uma das cartas que escrevi, mas que nunca te enviei.






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