Aos amores que não podem ganhar

Eles tiveram um briga feia. O motivo não sei ao certo, mas foi algo relacionado aos sapatos jogados no meio da sala… ah não, não era bem isso. Na verdade, era a mãe dele que estava sempre – não, também não. O que era? Parece que ele foi jogar futebol e uma amiga dela (lembrei) o viu sozinho bebendo com os amigos, aí ela… hum, também não era isso.

Sequer eles lembravam qual o motivo da discussão. Quem já esteve em uma briga sabe que de repente as coisas ficam tão vagas que alguém anotando os assuntos ajudaria muito. Mas como não tinham ninguém, continuaram discutindo todos os assuntos da história da humanidade. De repente era o cabelo dela que estava grande demais e incomodava; ele que roncava; ela que estava muito ausente por causa da faculdade e, definitivamente, era o amigo dele que tinha que parar de chamá-lo para o bar.

Eles não tinham muita clareza por que brigavam, mas era nítido que aquilo não acabaria bem. Ele poderia ter esperado ela terminar de falar e não ficar contra-argumentando sempre; ela poderia ter sido mais paciente. Ele poderia tentar escutar e não ser tão orgulhoso, ela poderia parar de cutucá-lo se não estivesse tão magoada.

No fim nenhum dos dois escolheu por isso: “Chega” – ele falou ao bater a porta. Secretamente, enquanto esperava o elevador, ele ainda torceu pra que ela abrisse a porta e o convidasse para ficar um pouco mais. Mas não. Ela, deitada ao lado daqueles mesmos sapatos jogados, ficou esparramada no tapete da sala se sentindo menos que nada.

E se ele tivesse voltado? Tivesse decidido deitar ao lado dela ali mesmo e beijado aquele rosto em lágrimas, será que ele teria perdido a discussão? Ou se ela abrisse a porta e confessasse: “Eu te amo, não vá embora agora.” Ela até perderia essa briga, mas hoje estariam bem. O fato é que essa história poderia ter acabado de várias maneiras diferentes, mas hoje ela não tem um final feliz.

O final deles é o prêmio pelas escolhas que fizeram – porque mesmo que os dois vençam, amores assim nunca podem ganhar.

Fonte: Celio Heitor Sordi

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