Ao final da vida, de quais histórias você quer se lembrar?

De quais histórias você quer se lembrar ao final da vida?

Foi assim, com essa pergunta martelando na cabeça, que eu fui pra cama ontem à noite, numa tentativa frustrada de pegar no sono, sonhar bons sonhos e não acordar feito doida no meio da madrugada. Não sei você, mas, ultimamente, eu tenho passado por isso: insônia por volta das três ou quatro da manhã. A cabeça borbulhando de ideias. O coração aos saltos. A mente inquieta. A alma desassossegada.

É fim de ano e, de repente, é como se o meu Caderno do Eu (o meu espaço para anotações de qualquer coisa que me faça sentir – e que por isso mesmo sempre faz sentido pra mim) estivesse aberto o tempo todo dentro da minha cabeça. E urgisse por anotações mentais do tipo que não podem esperar, porque pode ser que se percam, entende?

Do que você quer ter orgulho na vida? Como você gostaria de ser lembrado? Qual será o seu legado?

Missão. Propósito. Algo que seja maior do que qualquer medo e do que qualquer dor e do que qualquer obstáculo que possa existir no caminho. Algo como construir castelos de pedras. Transformar espinhos em flores. Acreditar. Mesmo quando o mar tá revolto, o barco tá virando e você não sabe nadar.

Ao final da vida, é esse o tipo de história que a gente vai querer contar. Histórias que nos façam ter orgulho de quem fomos, de quem nos tornamos, de todas as batalhas travadas com o mundo ao redor e com nós mesmos. Orgulho das vitórias, sim, mas também dos momentos em que a gente fracassou, em que a gente caiu e se machucou demais, mas que seguiu em frente, mais forte do que sequer imaginava, mas que escolheu agir apesar de todos os pesares.

Ao final da vida, é esse o tipo de história que a gente vai querer contar. Histórias que nos façam protagonistas, não coadjuvantes; histórias que nos tornem heróis de nós mesmos, simplesmente por termos agido com verdade, honestidade, dignidade, respeito e amor pelo que fomos, pelo que nos tornamos, por todos os sonhos que, por mais malucos que parecessem, a gente não hesitou em realizar.

Ao final da vida, não pode haver arrependimento nem pesar. Não pode haver aquele “podia ter sido diferente”, nem “e se”, nem “talvez”.

Qual é o quebra-cabeça que você quer montar para a história da sua vida?

E então eu abro o meu caderninho. E anoto. E rabisco. E escrevo. E reescrevo. E não quero deixar passar até que tudo ali reflita quem eu realmente sou, qual é a minha missão, aonde eu quero chegar.

Leio o que escrevi. Sorrio. Acho graça. E sinto um orgulho danado das escolhas que fiz, da vida que escolhi, de todos os nãos e caras de deboche que eu já tive que lidar pelo caminho simplesmente por ter optado por ser eu mesma, sem reticências. Sem porém. É que num mundo em que as pessoas parecem habituadas a usar máscaras e disfarces, numa tentativa quase desesperada de agradar e ser aceito, agradar e ser respeitado, agradar e ser amado, é quase loucura andar por aí com a cara lavada. O coração aberto. A alma despida.

Mas eu aceitei o risco. E é sobre isso que tenho pensado na madrugada. No tanto de vida que eu ainda quero viver. No tanto de gente que eu ainda quero impactar. Nos textos que quero escrever. Nos sonhos que quero realizar. Nas várias histórias da minha vida, dos meus tombos e quedas, das vezes em que fui mais forte e mais capaz, mais corajosa e mais guerreira do que eu sequer imaginava.

De quais histórias você quer se lembrar ao final da vida?

Histórias que me façam sorrir um sorriso sincero, que me lembrem casa de vó, abraço de mãe, tarde de primavera. Histórias que me encham de orgulho de mim mesma, que me façam acreditar que valeu a pena, que tenham sido partilhadas com quem eu amo, com quem me ama, com quem, mesmo não concordando com todas as minhas escolhas, sempre encontrou motivos para querer ficar.

Histórias verdadeiras, de lutas, de quedas, de dores que a gente acha que não vai ser capaz de superar. Mas que supera. Que segue em frente. Apesar das tempestades. Das críticas. Dos julgamentos. De tudo.

Histórias que possam inspirar outras histórias, impactar outras vidas, trazer um sopro de fé, um fio de esperança, uma palavra de consolo, luz à escuridão.

Histórias que sejam lembradas, que sirvam de exemplo, que façam alguém sorrir. Que façam alguém voltar a acreditar.

Histórias que mereçam ser eternas. Que mereçam ser contadas. Passe o tempo que passar. Aconteça o que acontecer.

Porque, no final da vida, é isso: você vai se fazer uma pergunta. Talvez várias.

Que as respostas valham a pena.

Que as suas histórias valham a pena.

Que você possa chegar lá no final e dizer viveu, que amou, que fez a diferença na vida de alguém.

E que isso baste.

E que isso te faça sorrir de novo, feito menino arteiro, pronto para descobrir o mundo.

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