Antes só do que amado pela metade. Sozinhos somos inteiros

Escrito por: Rebeca Bedone

Publicado originalmente pela Revista Bula

 

Você não queria, mas disse adeus. Não havia nada mais que fizesse aquele amor ficar. Restaram somente você e os sonhos que um dia foram de duas pessoas. No vazio do quarto silencioso, sua vontade de se levantar ficava escondida no canto mais frio debaixo da cama. Estava tudo fora do lugar. Móveis, objetos e pensamentos se perderam na bagunça da despedida, na partilha para decidir quem fica com o quê. Murcharam-se as flores do canteiro da janela e você se esqueceu por que precisava sair de casa para viver.

A gente querendo ou não, o frio vem como um beijo da morte, carregado de culpas e porquês. Traz no vento gelado dúvidas como “e se eu tivesse feito isso” ou “se não tivesse feito daquele jeito”. Chega com a solidão congelando o riso e aumentando a dor de quem fica, só não vem mais o amor que já foi embora.

Quando deixamos o amor partir, aprendemos a deixar o inverno passar. E para que chegue a estação do sol e das flores, não podemos mais viver a vida daquele amor sem ele. Ora, você nem curte essas músicas que ouviam juntos só porque ele gostava. Antes, tudo bem. Mas, agora, por que continuar com essa tortura musical? Coloque para tocar a sua canção preferida e tire-se para dançar no meio da sua sala! Então ponha um vaso florido no centro da sua mesa de jantar enquanto reaprende a fazer as refeições somente na sua companhia. Daqui a pouco estará colhendo as flores que nascerão no jardim da sua alma.

Atenção: não é culpa sua se mais um amor não te amou. E também não é exigindo do outro a entrega de algo que não é seu que alguém te amará. Não temos a posse do outro, então não se aflija por deixar o que não te pertence partir de você. Perdoe-se de suas dúvidas e “não se esqueça que desistir de alguém não é fracassar, é só reconhecer que não se pode amar onde não há reciprocidade”.

Eu sei que, se você pudesse, pegaria um avião agorinha mesmo só para achar o amor de novo. Iria de barco, de trem, de bicicleta, pedindo carona. Pediria férias, as contas, um empréstimo só para viajar rastreando o cheiro do seu perfume. Ah, se você pudesse, o convidaria para tomar um café, uma cerveja, um banho quente e falariam dos seus filmes preferidos, quais livros estão lendo, sobre política, filosofia e nada. Ouviriam o silêncio da noite e suas revelações, seus planos e medos.

Mas parece que você e o amor estão sempre se desencontrando. Quando você chega, ele já passou. Quando você vai, o amor te esperava. E nesse esconde-esconde você fica cheio de saudades, deseja o que já se foi e o que nunca chegou. Seu coração é um barquinho num oceano de lembranças, ora passeando por águas calmas, ora se perdendo em lágrimas turbulentas.

Então deixe o inverno passar e levar seu barquinho para águas que você não conhece ainda. Navegue um pouco sem rumo, mas sempre em frente. Lembre-se que o pôr do sol acontece para que na manhã seguinte o seu oceano receba um beijo quente de luz. O amor está em algum porto distante e perto de você.

Vai navegando sua vida porque somente você pode completá-la. Dê festa para os amigos em casa, assista a filmes, mesmo sozinho, e saia para passeios por aí com você mesmo. Seja feliz com o que você tem até não precisar ter ninguém. Vai navegando ora triste, ora feliz, mas vai navegando sem se preocupar com o tempo que falta para o amor chegar. Livre-se de convenções sociais que ditam que temos que ter alguém. Acredite, é bem melhor estar só do que ser amado pela metade.

Não que seja fácil, mas pode se tornar uma viagem e tanto. E quando um dia você se ancorar em uma nova praia, e o calor dessa areia amanhecida aquecer a sua alma e a brisa suave que vier das ondas do amar te beijar, você saberá… É o amor sendo escrito nos versos da vida que dois corações navegantes decidiram compartilhar!

 

*A frase entre aspas foi inspirada em citação de Isabela Freitas.

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