Amor exige realidade

Para leitura do que segue exige-se certo grau de abstração de tudo que já vimos nos filmes sobre o amor contemporaneamente. Isto porque a construção de amor, em nossa época, compõe o ideal de vida feliz, portanto o trata como parte dessa espécie de fantasia moderna, inclusive uma fantasia elitizada – como bem observa o filósofo suíço Alain de Botton.

Na verdade, o amor das telas de cinema, por mais próximo da realidade que acredite chegar, não pode lidar com a obviedade rotineira da vida. Isso é tão fácil de notar quando pensamos em um filme contando a vida cotidiana das pessoas, isto é, elas acordando cedo, mal ou bem humoradas, tendo de tomar banho, depois o café da manhã, então escovar os dentes, se vestir, ir ao trabalho, gastar algumas horas no trânsito ou caminhar algumas quadras até o local do trabalho, depois passar o resto do dia fazendo atividades às vezes nem um pouco interessantes; ou então pais e mães que precisam fazer isso tudo e ainda cuidar de seus filhos, pagar as contas ao fim do mês; e a maioria da população segue fazendo coisas diariamente que não seriam interessantes para se mostrar nas telas de cinema, ou mesmo nas páginas de romances.

O ideal de amor que se constrói entre nós, a maior parte do tempo, é feito a partir de recortes bonitos ou excepcionais da vida de alguém, como casamentos ou momentos iniciais de relações nos quais a empolgação é sempre viva, na verdade essa construção de ideal de amor – presente nas artes – toma sempre como base de si mesma expressões pontuais de amor, ou seja, capturam na realidade instantes e os transformam naquilo que consumimos como pinturas, romances e filmes.

O problema desse tipo de construção é que quase todos passam a possuir uma espécie de crença no amor que existe na excepcionalidade da vida. Como se amar fosse algo diferente da realidade óbvia de cada dia. Com isso, o amor realizado passa a exigir acontecimentos em sua órbita sem os quais ele não está provado como amor.

O amor, sob o olhar da realidade, aceita que a maior parte do tempo, amar envolve uma escolha. Por isso, em qualquer de suas dimensões (porque mesmo o amor erótico, o eros dos gregos) envolve o raciocínio de uma escolha: entre ficar ou partir, perdoar ou prosseguir, conviver ou evitar… e quanto mais escolhas no sentido de permitir a afeição natural para com quem se ama, mais amor podemos dizer que temos.

Colocado assim, em termos tão simples e ligado às práticas cotidianas, os seres mais românticos podem ter alguma dificuldade em aceitar que o amor seja, para muito além de um sentimento, um estilo de vida centrado em irrestrita aceitação da natureza diária da vida. Somos, então, seres comuns inseridos em nossas rotinas, mas que amamos, porque escolhemos fazê-lo a partir da afeição natural para com qualquer coisa que exista, como bem explica em sua teoria do amor o biólogo chileno Humberto Maturana.

Talvez nisto tudo consista algum segredo de duração de nossas relações, porque se o nosso amor não for apenas a euforia de um recorte específico da vida, ou o desejo constante de eventos extraordinários a fim de provar a existência deste “sentimento”, seremos capazes de ampliar a nossa visão positiva dos outros e de nós mesmos (por meio do amor-próprio) olhando sempre da perspectiva amante, isto é, aquela que faz o máximo de escolhas, de modo irrestrito, para que a afeição natural para com o objeto amado nunca se acabe.

FONTEObvius
TEXTO DEJoão Lopes
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