Amor em tempos de Facebook

De um relacionamento (aparentemente) sério para “solteira”. Em questão de dias, novamente em um compromisso com: Fulaninho de Tal. Mil e uma declarações vazias, com frases de efeito e copiadas de algum blog por aí que deixe livre o cursor direito, ou mesmo daqueles sites que contém ditos famosos. Mesmo podendo deixar apenas uma mensagem singela de bom dia, combinada à um “eu te amo, tá?”, por que não colocar no Mural, logo ali onde todo mundo pode ver, testemunhar e ser prova viva desse grande amor dos tempos modernos? A cada jantar fora, uma foto com o prato de cada um, com check-in no restaurante da moda e compartilhamento nas mais diversas redes em que todos estão presentes e poderão invejar esse romance dos sonhos.

Ou não. Assim como desconfio – e muito – de casal feliz demais (assim como de personas que não se abalam nunca com nada e não possuem dias ruins), fica uma pulga atrás da orelha toda vez que vejo grude, sufocamento, exposição excessiva do amor que, na teoria deveria ser praticado à dois. Nada mais na serena intimidade, como era antes dessas inovações todas atingirem em cheio o cotidiano. Não mais mensagens em SMS, safadas e cheias de detalhes que não satisfariam a curiosidade alheia, enviadas sob medida. Se não está ali no perfil quem é de quem, desde quando e com declaração de amor recente, minha amiga, a regra (ditada) é clara: ih, aí não tem muito amor, não. Quem ama, demonstra. Se o cara é apaixonado, vai fazer mil declarações por dia, vai colocar foto só sua, vai ter você junto na foto do perfil e excluir todas as mocinhas do passado negro. Mas, mas, será?

As pulguinhas se multiplicam a cada perfeição assim, estampada na cara da sociedade online. Já sabemos que o príncipe bonitão montado num cavalo não existe. Ainda mais se demonstrar em demasia, se quiser esfregar na cara das outras de quem levou fora o quanto é feliz hoje, se for sentimental demais só pra suprir o vazio existencial – sem realmente fazer uma reflexão solitária e propícia para avaliar se é comodidade ou paixão mesmo a falta ou o excesso de beijos, a companhoa capenga pra não passar o domingo sozinho, o acréscimo ou a falta dele na vida do outro e vice-versa. Conheço casais que tem brigas homéricas via web e por telefone, e assim que fazem as pazes, ao invés de irem se encontrar pra dar um belo beijo que sele a paz entre os pombinhos, coloca foto junto e se declara mais um pouquinho, só pra vulgarizar e afirmar pra si e pro resto do mundo que tem amor ali sim, que são alegres quando em dupla, embora isso seja quase nunca.

Estranho casais que namoram rápido demais e logo partem para mudar o status, pois é só com isso que parecem se preocupar mesmo. Conhecer melhor o parceiro? Ver até onde existe compatibilidade? Saber se estar num relacionamento é esse mesmo o desejo? Que fique pra daqui algumas semanas ou meses, quando o sonho for pelo ralo, junto com algumas lágrimas de quem se recupera logo porque não foi tão profundo assim. São líquidas as relações de hoje em dia, divagou sobre Bauman. Vou além: mais do que isso, são tão instantâneas, tanto quanto uma janelinha que pisca e depois de conversas e encontros forma um novo par, que juntos hoje possuem um perfil conjunto criado pelo sr. Zuckerberg para serem cafonas e odiosos aos olhos de quem quer ler conteúdo, notícias, curiosidades e não ter conhecimento de apelidos carinhosos, o que escreveram de forma confessional um ao outro, qual e onde foi que almoçaram durante a semana.

Fico feliz ao ver casais que gastam a companhia do outro com programas ao ar livre, viagens para pertinho, visitas a parques e praças sem posar para fotos que irão no mesmo instante estampar a timeline alheia, sem se preocupar em quantas pessoas curtiram ver o sorriso espalhado pelo rosto ou comentarão o local escolhido para a fotografia. Creio mais em românticos namorados que vão ao cinema, fogem do mundo nas horas vagas e preservam, tanto a si quanto ao outro e a felicidade do que vivem, simplesmente porque é construída na base sólida da desimportância quanto à opinião alheia e os costumes modernos tecnológicos. Casais que, ao invés de trocar a senha do perfil do Facebook, se enriquecem de segredos e experiências, permutados entre si. Que vão a livrarias, buscam novos cafés, ficam dias no campo apenas assistindo a filmes, longe da conectividade que vulgariza os sentimentos e torna banal qualquer manifestação amorosa. Confio no amor baixinho, desses sussurrados no pé do ouvido, com pequenos manifestos ao objeto de afeto e fuga do digital que formem lembranças memoráveis pro futuro – é suficiente.

Fonte: Camila Paier

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